segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Aborto no Brasil: tudo o que você precisa fazer e saber

      Sabendo que muitas mulheres em desespero, buscando ajuda e informações rápidas, podem ter sido direcionadas para este site, já começo indicando a ong WOMEN HELP WOMEN (Link: https://consult.womenhelp.org/pt/get-abortion-pills ). Se for o seu caso, visite lá primeiro e volte aqui depois. Não se trata de clínica de aborto, são pessoas voluntárias com atuação no mundo inteiro, incluindo o Brasil, que podem te ajudar prontamente, de forma efetiva, e que não querem lucrar em cima de você em um momento tão complicado. Não vá comprando “medicamentos” por aí, muitas mulheres estão sendo extorquidas, vendendo as coisas que tem em casa para comprar as pílulas, muitas das vezes não eficazes e/ou falsas (e na melhor das hipóteses não é a medicação de ponta – comentaremos isso ao longo do texto), nas mãos de charlatões. Fale com elas. Não trabalho na ong, não estou ganhando um centavo ou qualquer favor por isso, indico por ser uma organização séria e que realmente faz algo prático, de suma importância, nessa luta.

[As palavras abaixo destacadas em azul contem link para a respectiva fonte]

          Bom, vamos às reflexões. Primeiramente, sim, é preciso dizer que o Brasil está na idade da pedra no que se refere à questão do aborto. Tenho me debruçado sobre o tema há alguns anos já, escutando os dois lados, e agora, após assistir o programa Profissão Repórter sobre o aborto legal no Brasil e suas dificuldades práticas (exibido em 23/08/2017), decidi finalmente publicar um texto sobre tal. Um dos símbolos da Filosofia, a coruja, espera o entardecer para levantar o voo, indo nessa linha de inspiração, esperei o momento certo para pronunciar-me, de forma que esse texto tem todas as fontes importantes para se discutir o tema até o momento, e nossos argumentos pretendem refutar por completo aqueles que são contra a legalização do aborto.

        É preciso se informar minimamente sobre a questão para emitir qualquer opinião, mas infelizmente não é o que as pessoas fazem – hoje em dia se grita os maiores absurdos com tanta convicção que você custa acreditar. Por exemplo, saber que o aborto pode ser realizado em casa, apenas com medicamentos, de forma extremamente rápida e eficaz, similar a um aborto espontâneo – menos de 1% prossegue grávida quando feito até as 12 primeiras semanas, usando a medicação atualmente recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a saber, Mifepristona Misoprostol – e praticamente sem risco algum para a gestante (por volta de 2% apenas das que abortam até a 12ª semana tem alguma complicação médica, como sangramento excessivo, ou a necessidade de intervenção cirúrgica, isto é, curetagem ou aspiração a vácuo). Mesmo para gravidezes com 21 semanas o risco de complicações é ainda baixo, a saber, 8,8% necessitam de intervenção cirúrgica, e por volta de 3% continuam a gravidez após o uso dos medicamentos mencionados acima (em doses um pouco maiores). [Fontes: o site da Women Help Women, onde tem os links para os vários artigos relacionados, e o site da OMS, "Abortamento seguro: orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde – 2ª edição".]. Não obstante a já baixa porcentagem, quanto antes for realizado o aborto, mais eficaz e menos risco terá, obviamente (o ideal é que seja feito até a 9ª semana – a mulher que faz nessa fase toma poucos comprimidos, usando os dois medicamentos mencionados acima, e quanto ao que vê expelir, normalmente, se olhar bem em meio aos coágulos, só vê um saco gestacional, de aproximadamente 2 cm). Portanto, muito, mas muito oposto ao terror criado pelos anti-abortistas. Aquela cena grotesca que eles ligam aos “defensores do aborto”, de um bebê que só falta falar, lutando Kung Fu com um açougueiro mascarado por sua vida, é um mito, está para um aborto medicamentoso feito até a 12ª semana, como o Titanic está para um barquinho de papel. Muitas mortes literalmente seriam evitadas se tudo fosse realizado de forma rápida e de fácil acesso.

      Antes de emitir a sua opinião contrária, saiba de alguns números: OMS estima que 47.000 mulheres morrem por ano devido aos abortos clandestinos/inseguros (que chegam a mais de 22 milhões realizados, mulheres em uma situação já tão complicada e ainda correndo o risco de serem criminalizadas), uma a cada 9 minutos. Ainda de acordo com a OMS98% dos abortos inseguros acontecem em países subdesenvolvidos, a maioria com leis restritivas, como aqui. Pelo menos 500 mil desses abortos clandestinos acontecem no Brasil, afetando sobretudo as mulheres pobres, que buscam meios baratos, sem respaldo científico e/ou sem qualquer assistência. Muitas sem escolaridade básica, que tem dificuldades inclusive para saber que estão grávidas, e que depois fazem de tudo para abortar, coisas insanas como socar a barriga, introduzir objetos e produtos de limpeza na vagina, tomar químicos tóxicos diversos, se cortar e por aí vai. Isso sim é um grave problema, que pode ser solucionado com consciência e informação.
         Indiscutivelmente, pessoas fazem abortos sendo ou não crime, ponto. Mas não é por isso que estamos defendendo a legalização – antes que um imbecil faça a desproporcional e batida comparação: “as pessoas matam, nem por isso descriminamos o homicídio” –, mas saber disso é pertinente, pois dirige nosso olhar para a realidade e desnuda suas implicações. A nossa estrutura argumentativa não gira em torno de liberar porque fazem, ao longo do texto apresentarei cada ponto que nos fundamenta, todavia, fechar os olhos para a realidade é burrice. Portanto, o que essa “proibição” faz na prática? Certamente não interfere na decisão de mulheres ricas, que pagam uma fortuna em clínicas especializadas ou viajam para países desenvolvidos, onde o acesso aos comprimidos é simples, e lá mesmo realizam o procedimento, sem risco de vida e de criminalização. Resposta: afetam as mulheres pobres. A própria falta de informação, que está diretamente ligada à pobreza e à baixa escolaridade, já é um complicador gravíssimo, muitas vão correr atrás do aborto nos meses finais da gestação, quando tal já não é uma opção viável/aceitável, e acabam morrendo em meio às ações mais inimagináveis.

         O Mapa Mundi deixa evidente que a questão da legalização do aborto anda junto com o desenvolvimento e a escolaridade da nação ( Veja aqui: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Abortion_Laws.svg ). A verdade é que a questão da legalização do aborto já é tema do passado nos países de primeiro mundo, é inclusive comum uma enfermeira perguntar em uma consulta padrão se a pessoa pretende continuar ou não com a gravidez – eles veem tal debate como nós veríamos um povo discutindo legalizar ou não a liberdade de escravos. No Brasil temos esses dois pontos lá embaixo, principalmente a educação, que quando “existe”, costuma ser de péssima qualidade, e não por acaso, temos parlamentares que não conseguem entender que uma coisa é eles terem uma opinião sobre o tema, outra é eles quererem que todos tenham a mesma opinião retrógrada! Se o motivo desses é uma questão religiosa, sendo coerente ou não (tendo em vista que existem grupos religiosos a favor do aborto, como a ong “Católicas pelo Direito de Decidir”), deve ser um motivo para eles, não para uma nação laica. Por exemplo, você pode não raspar os pelos do corpo e nem cortar o cabelo curto porque sua religião não permite, mas você mesma sabe que seria um disparate defender isso como lei no Congresso. Os “argumentos” deles são tão auto refutáveis que é quase total perda de tempo elencá-los aqui. O mais usado é que “a vida começa na fecundação”, o que é um absurdo biologicamente falando, já que tanto o espermatozoide como o óvulo estão vivos. A vida mesmo começou bilhões de anos antes de existir o Homo Sapiens. Dizer que a “vida humana” começa em tal também não faz real sentido, pois não é junção de células que faz de nós humanos – discutiremos esse ponto mais a frente. Esses religiosos veem a fecundação como uma obra divina, uma “alma” mandada por deus, ora, esquecem que o homem desenvolveu a inseminação artificial e a fecundação in vitro, criando “almas” quando querem. A propósito, muitos embriões são descartados no processo de nascimento de um bebê de proveta, e ainda, só para constar, pode-se alterar a genética de tal, ou mesmo, em tese, gerar filhos de pessoas do mesmo sexo (não se trabalha muito esse campo atualmente por questões éticas). Como ficam todos esses embriões que não vingam? Seja de origem natural ou artificial. São “alminhas” descartadas? E se se tomar essa lógica, qual a real diferença dos incontáveis espermatozoides (em média 350 milhões em uma ejaculação) que batem com a cara no azulejo? Ou dos óvulos que vão embora nas menstruações? Eles juntos por segundos sem mais faz real diferença? Alguém consideraria um ovo misturado com farinha um bolo pronto? Óbvio que não, né?! Chamar junção de células de “criança”, como muitos fazem, é fruto de desinformação ou pura apelação e demagogia da mais barata. É como chamar um caroço de manga que acabou de ser plantado de mangueira, ou uma flor que foi polemizada de fruto, ou leite de queijo, e por aí vai, ninguém em sã consciência faria isso. Do zigoto a uma criança tem um caminho enorme e é muita ignorância considerar ambos a mesma coisa – ou pode-se tratar de uma alienação brutal também, alguns simplesmente repetem sem refletir sobre a questão, influenciados pela sociedade onde diversos puritanos medievais veem e propagam a gravidez não planejada como um “bem feito” para punir o sexo, e acabam automatizando tais jargões. Mas outros parecem considerar assim por estupidez voluntária mesmo... Alguém pode alegar que é “uma questão de tempo”, ora, se se formos tomar as nossas atitudes para se criminalizar ou não algo baseando nisso estamos perdidos, pois quase tudo nessa vida pode ser visto por alguém como uma questão de tempo; é uma questão de tempo que você morra, mas não é por isso que você vai parar de comer agora, ou vamos aceitar o homicídio, né? Questão de tempo faz a gente chamar um inseto de lagarta e outro de borboleta. O zigoto é uma “criança em potência”, nada mais. Mas, diga-se de passagem, que na verdade nem é só questão de tempo, a gestante pode ter um aborto espontâneo, o feto pode se tornar um anencefálico (que não possui cérebro), ou pode morrer por diversas razões, ou ainda se a gestante não se alimentar, não se cuidar ou ter uma doença séria, não haverá criança nenhuma; mesmo que o desenvolvimento fosse 100% garantido, nada mudaria, enquanto não se forma o cérebro só será "ser humano" em potência. Aristóteles já nos dizia a distância e a disparidade que há entre algo como potência e como ato. Ser é ser em ato, no presente momento. Um exemplo que ilustra isso tudo: imaginemos um casal jovem heterossexual, saudável e que se gosta, eles fazendo sexo com frequência, quando a mulher estiver no período fértil, faz de seus gametas ainda não unidos mais “criança em potência” do que, por exemplo, um óvulo já fecundado no útero de uma mulher que tem graves problemas de aborto espontâneo. Nos dois casos está claro que estamos falando de mais ou menos potência para algo surgir, concorda comigo? E nessa linha, mais potência para um ser humano surgir seria um óvulo fecundado no útero de uma mulher saudável, claro, mas aqui há apenas aumento da potência, da possibilidade de vir a ser, assim como há aumento da potência quando o zigoto se torna um embrião; mas é preciso entender que estamos falando de algo que ainda não é outro algo que ele eventualmente poderá ser, o máximo de potência será ainda só potencial para se tornar algo, por si só, não faz ser em ato, isto é, ser de fato. É como a chegada do ano novo, não pode acontecer enquanto estivermos nesse ano, mesmo que a passagem do tempo seja certa. A propósito, voltando a questão de não ser algo certo, o aborto espontâneo acontece em pelo menos 15-20% das gravidezes (isso entre mulheres que sabem que estão grávidas, zigotos descartados sem elas saberem pode chegar a 50% das fecundações), pelo visto deus não se importa muito com essas “almas” perdidas. O certo é que muita dessa loucura, não há outra palavra se quisermos ser precisos, é gerada por uma sociedade moldada no cristianismo fundamentalista mais cavernoso, com padrões que considera pensamento “impuro” de adultério um pecado do mesmo nível que a pedofilia, ou mentir da mesma forma que o assassinato, ou não dar o dízimo como genocídio, e por aí vai, todos punidos com o mesmo peso, a tortura eterna; não é de admirar que façam tal confusão em relação ao aborto, que coloquem tudo em um mesmo saco de estultice. Mas não faz sentido algum discutir sobre as disparidades que vejo no cristianismo aqui, a não ser devido ao fato de que querem impor a crença deles, como é o caso do “câncer na política”, também conhecido como Bancada da Bíblia e seus apoiadores. E mesmo para aquelas gestantes que são religiosas e veem tal como “pecado”, ora, cabe a elas decidir “pecar” ou não! A relação com deus é íntima, ao menos eu não conheço nenhuma religião que terceiros possam justificadamente decidir isso para você. Os religiosos precisam entender de uma vez por todas que pecado é uma coisa, algo errado/criminoso é outra, o primeiro diz respeito à sua religião particular, o segundo à sociedade, que é laica; não podemos definir os segundos com base nos primeiros, não estamos em um Estado teocrático, por exemplo, você pode considerar “usar o nome de deus em vão” (e quaisquer coisas do tipo) como pecado, mas não pode querer criminalizar essa mesma ação. Só dando esse respeito mínimo, você poderá ser respeitado nas suas individualidades. A religião – se é que você a segue de forma correta, não vou entrar nesse mérito –, é sua, não da nação brasileira!

     Engraçado que quando a criança nasce, aí, para esses mesmos “defensores da vida” de araque, não tem problema, se for filha de moradora de rua, jogue na sarjeta, à própria sorte, deus cuida, né? Seria cômico se não fosse trágico. Dão grana na igreja para aparecer, mas não são capazes de pagar um pão para um menino de rua e ainda, no mais das vezes, são contra todas as políticas distributivas e/ou que buscam diminuir a desigualdade social. Como diz Dostoiévski sobre “O Grande Inquisidor”, esses que se dizem cristãos hoje seriam os primeiros a crucificar Jesus. Ou como já havia dito Nietzsche: "no fundo só existiu um cristão, e esse morreu na cruz." (O Anticristo. XXXIX).  Mas não estou aqui para ridicularizar sua crença ou mostrar as hipocrisias mais grosseiras dos crentes, embora muito do que dizem e pregam possa merecer tal – diga-se de passagem, muitos dos crentes não conseguem ver a diferença abissal entre respeitá-los e respeitar o conteúdo de suas ideias/crenças, pessoas (reais) devem ser respeitadas, não ideias, ou personagens, os últimos não são pessoas de direito, por definição –, meu propósito é deixar claro que para o bem social é indiscutível a legalização do aborto, gratuito, feito pelo SUS. [Alguém poderia pensar que o Governo não teria condições de bancar esses atendimentos, provavelmente você pensa assim por ter inculcado em sua cabeça a cena clássica do aborto como um procedimento cirúrgico, agressivo e de alto risco, mas essa não é a realidade, o aborto medicamentoso feito no primeiro trimestre é um atendimento de enfermaria, gastaria menos com o fornecimento dos dois medicamentos de ponta de uso oral (Mifepristona Misoprostol) do que com o que já se gasta com internações por complicações decorrentes de abortos inseguros]. Fruto da falta de informação e respeito à decisão alheia, criminalizar uma mulher pelo aborto é o fim do mundo! Reitero, quem considera que o aborto é “pecado” ou qualquer coisa que o valha, ok, que não faça, o problema está em obrigar as mulheres que não pensam assim a não fazer também. Por sinal, muitos dos crentes pensam que mulheres que fazem aborto são monstras, pessoas "sem deus", longe da visão de mundo deles, bom, se é o seu caso, lamento, saiba que mais de 81% delas são cristãs e 7% de outra religião, veja a Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA). E de acordo com a mesma pesquisa, 1 em cada 5 mulheres aos 40 anos de idade no Brasil já fez pelo menos um aborto (4,7 milhões de mulheres em 2016). Chama os Power Rangers que é “monstra” demais por aí gente! Criminalizar o aborto não diminui a ocorrência do aborto – como já dizemos, só pune e sacrifica a mulher pobre –, se essa é a intenção de quem prega para continuar proibido, você está fazendo isso muito errado. Diversos países em que o aborto deixou de ser criminalizado, não apenas o número de mortes por complicações de aborto caiu de maneira drástica, mas o próprio número de abortos. [Não por números levianos, abaixo comentaremos mais esse ponto, quando refutarmos a “Jênia” Isabela Mantovani]. Fato este, sobretudo porque as pessoas se conscientizam mais ao falar abertamente sobre o tema, pois vem junto com a propaganda dos anticoncepcionais e planejamento familiar, o que consequentemente diminui a necessidade do aborto, e ainda mais a repetição do aborto. Ninguém acha bacana passar por um aborto, mas é ainda bem menos “bacana” ser penalizada em um momento tão delicado, ficar com sequelas e mesmo morrer, simplesmente por ser pobre.

        Detenhamo-nos mais um pouco sobre essa questão socioeconômica. Estamos falando de um ciclo de problemas, inclusive literalmente de crianças criando crianças, já que a lei não tem funcionado na prática e ainda têm lunáticos protestando e agindo contra o aborto até em casos de estupro. Em qualquer caso, quando o nível social é baixo, uma jovem que engravida de forma não planejada costuma abandonar os estudos, perder o emprego, às vezes são expulsas de casa e muitas se submetem aos trabalhos mais precários para sustentar o filho, em desespero muitas entram para o tráfico de drogas (acabando presas) e/ou se prostituem para não ver o filho passar fome. Acontece de em meio a essa situação já lastimável engravidarem novamente, sem saber quem é o pai, talvez de gêmeos (pois é, o mundo real é complicado), e ninguém ajuda com um centavo, as igrejas, tão contra o aborto, por ironia deixam “a deus dará”, a família não tem condições, isto é, se ela tem família, né? Aí vão morar na rua, ou em um barraco com esgoto a céu aberto, e de repente, passado alguns anos, chega o filho ou filha dela, se não tiver morrido por uma causa evitável qualquer, vendendo balas para um babaca desses que defendem a “vida” (sem nem saber do que estão falando) a qualquer custo, cristão e formal, que nem abaixa o vidro do carro para olhar a criança esfomeada. Ainda, vários casos desses são de mulheres que sofrem violência doméstica, que procuram o aborto para não expor mais um filho aquela vida de espancamentos e miséria. E vejam, ainda nem tocamos no ponto de como uma gravidez, para o feto ser bem nascido, precisa de cuidados constantes, sobretudo alimentação de qualidade e acompanhamento médico. Muitas delas não têm o que comer, são usuárias de crack, o que aumenta sobre maneira a possibilidade do bebê nascer com algum problema/formação, se ficam doentes não tem como tratar – muitas morrem cedo, deixando as crianças sozinhas na rua , e essas crianças vão nascendo e crescendo na mesma situação, sem a nutrição devida, sem cuidados médicos, sem dignidade, em meio à violência e, com doze, treze anos, costumam já estar grávidas, e vão proliferando como coelhos, uma criança atrás da outra, sem escolaridade, sem chances nenhuma na vida, e assim vai seguindo o ciclo vicioso de desgraças. Se essas mulheres tivessem a opção do aborto, informadas como se deve, muitos desses problemas seriam evitados, pois a vontade delas seria resguardada, sem precisar ter dinheiro no bolso. Obviamente, isso concomitante a forte campanha e fácil acesso a anticoncepcionais. E não temos ilusão de pensar que a legalização do aborto resolveria todos os males sociais, mas nesse quesito em específico ajudaria muito, ofertado no sistema público de saúde, para aquelas que escolhessem não seguir com a gravidez. Mas em relação a essas coisas ninguém faz nada, pobre é sempre mais um "pobre coitado", a elite julga como um mundo paralelo, não toca a classe média cristã em nada, mas “assassinar zigoto”, que loucura, né?! “Depois que nasce o problema não é nosso”. Francamente, isso é não contentar com o fundo do poço da hipocrisia, pegam uma retroescavadeira e começam a cavar.

         Mesmo nos casos em que a miséria não impere junto, em várias situações a pessoa não tem com quem deixar a criança e o crime de “abandono de incapaz” rola solto. Crianças criadas por avó e avô é o que mais tem, muitos sem condições físicas para isso. Toda criança merece vir a esse mundo para ser amada e protegida, não para ser vista como um peso e sofrer. Não vir para frustar planos e acabar com sonhos, mas para realizá-los. Sabemos que mulheres que tem filhos em período escolar raramente voltam a estudar, e quando voltam costuma ser uma década depois ou mais. Sabemos também que o mercado de trabalho é muito mais difícil para mulheres jovens que tem filhos, em todos os sentidos, ainda mais em trabalhos “chão de fábrica”, onde os empregadores perguntam abertamente às candidatas quantos filhos elas têm, ou nem as contratam se estiverem grávidas. Os motivos são vários, o porquê da decisão cabe apenas à pessoa que vai gerar, mas não enxergá-los é pagar do pior cego, ou seja, aquele que não quer ver mesmo.
      Um assunto grave que poucos tocam, mas que está presente, é o suicídio de mulheres grávidas, muitas veem seu mundo desabar nessa hora, não vem como encarar os pais, são abandonadas pelo companheiro, sabem que não terão condições de manter um filho, às vezes em um ambiente de violência, e por não poder fazer o aborto, se matam para que ninguém nem saiba da gravidez. Segundo levantamento do artigo “Sob a sombra da maternidade: gravidez, ideação suicida e violência por parceiro íntimo, 7,8% das gestantes tem ideação suicida, e um dos fatores de risco é exatamente o aborto legalmente restrito.
         E essa discussão é antecedida pelo fato da mulher ter direito ao próprio corpo, por natureza já é um absurdo que praticamente só homens decidam sobre essa proibição, tendo em vista que a presença das mulheres no Congresso é tão escassa. Homens, que consideram zigoto como pessoa de direito, proibindo mulheres (pobres), podemos resumir assim: machismo e patriarquismo cegos. O professor Leandro Karnal disse certa vez: “Sigo a ideia de Voltaire que se os homens engravidassem o aborto talvez seria dado nas igrejas ao som de canto gregoriano”, fato. É a mulher que vai ter o corpo transformado, que vai sofrer as consequências dos hormônios, que vai precisar de cuidados, ter restrições, mudar hábitos, ir com frequência a postos de saúde, que vai encarar o olhar desaprovador dos otários desinformados, que vai sofrer e correr risco de vida ao parir, que vai amamentar depois, e, finalmente, ter todas as demais implicações que é ter um filho (e nem nesse último ponto os homens são iguais, já que nossa cultura deformada vincula o cuidado dos filhos quase que exclusivamente às mulheres), ora, quem tem que decidir é cada uma delas, por seus próprios motivos! Aí esses jumentos militantes contrários, que consideram um zigoto/embrião o mesmo que uma criança, dirão aquela frase tirada da bunda: “então mate os seus filhos quando eles te encherem o saco”, é o tipo de comentário que não merece resposta, sabe? Já estão refutados aqui, mas enfim, tal ser embrionário está mais próximo do crescimento de um vegetal do que uma criança feita; já ilustramos, mas outra situação análoga para reforçar o absurdo, seria um adolescente clamar seriamente lugar na fila de preferência para idosos porque um dia ele poderá vir a ser um. Chamar zigoto de ser humano pode ser justo para você que é contra o aborto, já que possivelmente você também não tenha um cérebro! [ironia mode on – é preciso avisar, pois é possível que eles não entendam]. E estamos falando de uma sociedade que vê de forma naturalizada homens que abandonam seus filhos, enquanto se uma mãe o faz, só falta ser crucificada em praça pública – vale lembrar que a mulher é responsável legalmente pela criança desde o seu nascimento, enquanto o pai, se negar que é dele, vai ser preciso um longo e árduo processo judicial, onde muitas mães desistem e registram seus filhos apenas com seu nome. Dignidade para um ser humano nascido para que, né?! Curioso que muitos desses defensores dos “direitos zigóticos” são contra os Direitos Humanos! A estupidez não tem limites.

        Mas existe uma questão séria, que podemos desenvolver sobre esse ponto do “vir a ser”, é nos perguntarmos qual o limite, qual o momento em que um aborto não é mais aceitável. Tomando como base as informações científicas que dispomos sobre desenvolvimento do feto e sobre risco para a mulher, a questão não é difícil. O ser humano é um ser racional, é o que ouvimos frequentemente, mas existem seres humanos que não parecem dar muita bola para razão, né?! Então, digamos que o ser humano é um ser pensante, ou antes, o ser humano é um ser capacitado para pensar. Isso significa ter um cérebro e um sistema nervoso. Na verdade, quase a totalidade dos “bebês” que nascem sem cérebro morre logo após o parto, e os que sobrevivem, permanecem em estado semi vegetativo, só conseguindo realizar movimentos de reflexo (controlados pelo tronco cerebral), como engolir, respirar e manter batimento cardíaco, morrendo em pouco tempo. Sendo assim, esse é um marco importante para a questão do aborto em qualquer situação, friso, o desenvolvimento de um CÉREBRO / SISTEMA NERVOSO. No que diz respeito ao feto, é um limite razoável e coerente considerar que após a formação do cérebro/sistema nervoso o aborto não é mais algo aceitável, pois aí sim, nesse caso o feto está mais próximo de uma criança – estamos falando no mínimo da 20ª semana. (O bebê prematuro mais novo que sobreviveu até hoje é de 21 semanas e 5 dias de gestação). Vale lembrar aqui que, segundo pesquisadores da Royal College of Obstetricians and Gynaecologists o feto não tem maturidade neurológica para sentir dor até a 24ª semana – “consciência” então é um termo muito mais complexo, indiscutivelmente mais tardio, mas não vamos entrar nessa seara, não precisamos levar a esse ponto para sustentar nossos argumentos, até porque estamos falando de metade desse tempo de gestação. Esse é um item crucial, o outro, como mencionamos, é o risco para a gestante. Até a 21ª semana os riscos são relativamente pequenos, e o êxito no aborto é extremamente elevado, mas para diminuir ainda mais o risco, ser feito de forma mais eficaz, com pouca medicação e gerando menos prejuízos de forma geral, além de andar de acordo com a média dos países legalizados no mundo e, como já dito, considerando o tamanho e as características do embrião/feto (sem cérebro/sistema nervoso formado), a permissão legal para o aborto por escolha da mulher deve ser de até 12 SEMANAS de gestação. Esse é um tempo razoável para que se descubra a gravidez e para se tomar a decisão (salvo para os casos raros, criminosos, em que crianças engravidam antes de menstruar pela primeira vez – já que não teriam como saber que estão grávidas pelo atraso da menstruação, pode ser necessário mais tempo para elas poderem fazer o aborto, mas mesmo assim, não depois da maturação do sistema nervoso do feto). Não há como racionalmente defender o contrário, mas, friso: se ainda assim você é contra aborto, não se importa que a proibição na prática só prejudica e mata mulheres pobres, sem interferir em nada para aquelas que tem dinheiro, tudo bem, não faça você um aborto! Cada mulher deve ter o direito de escolher, independente da classe social. Ninguém deve ser obrigado a gerar um filho. Filho não pode ser “punição”. Não queira tomar essa decisão para quem pensa diferente de você, ou melhor, para quem pensa.

       Outro “argumento” que os contrários ao aborto usam é: “hoje em dia só engravida quem quer”. Mentira. Todos os métodos anticoncepcionais disponíveis podem falhar. As pílulas anticoncepcionais, método mais utilizado no Brasil, são bem seguras, mas mesmo quando tomadas de forma correta, não são infalíveis, sem contar as situações que podem diminuir a eficácia delas, como vômito, diarreia, uso concomitante de outros medicamentos e mesmo esquecimento. Não há um só indivíduo que defenda o aborto como método anticonceptivo, o aborto deve ser possível em último caso, pois certamente é um processo doloroso, e em muitos casos traumático (sobretudo devido à forma geral que as pessoas julgam essas mulheres, ainda mais em um meio religioso, que condena a mulher até por comprar camisinha). Não há dúvidas que devemos reforçar e facilitar o uso de contraceptivos, que certamente diminuirá o número de gravidezes não desejadas, mas uma coisa nada tem a ver com a outra. A legalização do aborto independe do número, a legalização do aborto diz respeito à individualidade e dignidade da mulher, diretamente ligado à sua autonomia. O programa Profissão Repórter entrevistou uma integrante do “Movimento Brasil Sem Aborto”, Ana Ariel, de uma ong cristã contra o aborto de Campinas / SP, que mencionou, adivinhem, o jargão: “tem mil caminhos para não engravidar”. Depois ela disse: “acho muito triste que quando ela escolha ter uma vida sexual ativa, ela escolha abortar, é um risco que a gente corre quando se relaciona, nenhum método [anticoncepcional] é 100% seguro”, hãn?! Espera, mil caminhos para não engravidar, mas nenhum é totalmente seguro? Coerência que é bom, nada! Tem que rir. Como se já não bastasse essa contradição, ainda terminou dizendo que, pasmem: “nós somos contra o aborto mesmo em casos de estupro”! A coisa toda é patética, mas enfim, será que ela não sabe que estupro, por definição, não é uma escolha? Lembrando que ela disse: escolha ter uma vida sexual ativa” para se justificar antes! Pois é, meus caros, tem loucos lutando (os mais perigosos estão no Congresso, claro) para esse retrocesso inominável! A seguir ela disse o clássico: “todo bebê tem direito à vida”, sinceramente, viu! Não vou me alongar mais nesse ponto, acho que acima só faltei desenhar; um bebê não está dentro do útero no segundo após o coito – caramba, isso parece discussão com o homem das cavernas! –,  fases de desenvolvimento e transformação: primeiro é um zigoto (óvulo fecundado), depois uma massa de células, depois um embrião, depois um feto, depois, um feto com cérebro/sistema nervoso formado, quando aí sim, nesse último estado, como mostramos acima, há argumentos para se evitar um aborto. Já que falei em desenhar, uma outra analogia, pensando em arte: alguém pagaria o valor do quadro da Mona Lisa se o Leonardo da Vinci tivesse parado na primeira pincelada? Alguém se quer consideraria aquele borrão em uma vasta tela branca um quadro? “Questão de tempo” não faz o quadro ser o quadro até quando ele estiver definido como tal, né? Nas primeiras 12 semanas, período que entendemos válido para realizar o aborto, o feto chega a pouco mais de 5 cm, pesa menos de 15 g, e não tem o sistema nervoso desenvolvido (neocórtex não existe) – antes da 8ª semana então nem se quer é considerado um feto (muitos cientistas só consideram feto depois da 10ª semana), mas apenas um embrião, com aproximadamente 1,5 cm, pesando 1 g! Chamar as primeiras fases de “bebê” é um equívoco, mas com o propósito que ela usa é mais do que falta de informação e reflexão sobre o tema, é terrorismo! Ela já é conhecida por ter passado vergonha no programa Dois Lados da Moeda” da Jovem Pan, quando em meio às bobagens ditas, falta de argumentos válidos, apelo à religião, apelo à maioria, ela argumentou que o coração começa bater 18 dias depois da concepção, o que já é um erro, pois se trata de um “coração primitivo”, e mesmo esse começa a bater por volta do 22º dia; nem essa informação dela é correta. Ela só fala abobrinha (essa de diminuir os dias para o início do batimento cardíaco foi sim a menor), provavelmente por ignorância monumental mesmo, mas em todo caso o argumento é sem sentido, uma vez que a mesma considera que assim que o espermatozoide entra no óvulo é um cidadão. Portanto, o único motivo dela ter mencionado o coração é uma tentativa patética para tentar provocar sentimentalismo barato, ou então demonstra que nem ela mesma está convicta que zigoto é ser humano, precisando de transformações/desenvolvimento para ser considerado como tal. Essa questão do coração é ridícula por natureza nos dias de hoje, ninguém mais em sã consciência acredita que se pensa ou sente com o coração, obviamente não passa de uma figura de linguagem, não é o coração que nos faz humano, nem mesmo é a essência da vida, pois é possível morrer e manter o coração batendo! Ou fazer um transplante de coração. Já a morte cerebral é o fim. Só pautado no misticismo para se afirmar que a vida começa na fecundação, como dizemos, o espermatozoide e o óvulo já são vivos, e não é a junção deles tão somente que caracterizará um ser humano. Se a pessoa quer considerar assim, afirmando haver uma “alma” no zigoto ou qualquer coisa que a valha, tudo bem, não faça ela um aborto, mas, obviamente, as leis não devem ter esse tipo de base em um Estado laico. A ciência e a reflexão filosófica nos dizem que não há vida humana sem cérebro, sem sistema nervoso formado, esse é um parâmetro justo e racional para se tratar desse tema. O resto é dogma religioso ou sentimentalismo barato. Vejam que a própria forma que a lei está hoje criminaliza o aborto com uma pena muito menor que a de um homicídio, o que evidencia que os próprios legisladores que criminalizaram o aborto no Brasil viam uma diferença entre um feto e um ser humano. Nossa diferença é clara, não um ser dentro ou fora da “barriga”, mas a formação do sistema nervoso, o que está MUITO longe de acontecer antes da 12ª semana de gravidez, como mostramos acima.

       Embora o ser a opinião da maioria não faça que uma tese seja válida por si só, mesmo em relação a essa questão, vale lembrar que quando a pergunta é feita de outra maneira o resultado pode mudar, por exemplo, um caso prático: o IBOPE Inteligência fez uma pesquisa em fevereiro de 2017, encomendada pelo grupo “Católicas pelo Direito de Decidir”, onde eles perguntaram se o entrevistado concordava com a prisão de uma mulher que precisou recorrer ao aborto, 64% disse que não concordava (total ou parcialmente). Mas os argumentos elencados aqui independem, e devem independer para ter bases sólidas, da opinião da maioria, ainda mais em um país onde as pessoas colocam suas crenças religiosas como verdade absoluta. Como analogia, a maioria no passado ter considerado que a mulher não devia votar não muda em nada o absurdo da questão, por isso deve-se focar nos argumentos, não em sensacionalismo. 
        Já que nessa altura do texto tocamos nesse assunto legislativo, no Brasil já é permitido o aborto nos casos de estupro, risco de vida da mãe e fetos anencefálicos, todavia, na prática a coisa não funciona como se deve. O programa Profissão Repórter, em 28/10/2014, já havia mostrado o drama que é mulheres pobres nas mãos de precárias clínicas de aborto e vários outros males gerados pela desinformação, e agora, no programa sobre a efetividade do aborto legal (23/08/2017), mostrou como reina a ignorância nos postos de saúde, nos departamentos de assistência social, nas delegacias e na população em geral, mas que mesmo pessoas informadas não adiantaria muito, tendo em vista que quem deve realizar o procedimento, no mais das vezes, não está minimamente a par da lei e das normas. Outras vezes a gestante se depara com funcionários preconceituosos e/ou fundamentalistas religiosos, que por opinião pessoal nessa questão, negligencia os casos. E até um juiz dar a sentença, nos casos em que profissionais de saúde negam a realizar o procedimento, é tarde demais. Primeiramente, NÃO é necessária ordem judicial, nem mesmo boletim de ocorrência do estupro em delegacia para se realizar o aborto por esse motivo. Nenhum médico ou hospital pode alegar que tais são necessários para realizar o procedimento, se acontecer, a polícia deve ser acionada (muito embora não seja solução para o problema, muito menos uma solução definitiva para os vários casos, mas, ao menos, cabe registrar para providências futuras). Basta a declaração da gestante. (Para menores é necessária a autorização do responsável). O Art. 128 do Código Penal (e a decisão do STF pela ADPF 54 de 2012), que versa sobre os casos em que o aborto é legal, não exige a apresentação de queixa/crime em nenhum caso e, de forma clara e detalhada, há a Norma Técnica do Ministério da Saúde de 2005 (Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Caderno nº 4) que diz: “a mulher violentada sexualmente não tem o dever legal de noticiar o fato à polícia. Deve-se orientá-la a tomar as providências policiais e judiciais cabíveis, mas caso ela não o faça, não lhe pode ser negado o abortamento.” (2.2.3). Muitas mulheres e crianças que querem abortar não estão conseguindo devido a essa situação absurda, é o caos, estão gerando filhos de estupradores por causa da negligência das pessoas que deveriam saber disso na ponta da língua! Como tudo aqui no Brasil que sai um pouquinho do “padrão”, ninguém quer chamar a responsabilidade para si. Só que nesse caso o tempo é precioso, onde o “jogo de empurra” se faz literalmente irreparável!

        A Ana Ariel, da ong cristã, que mencionamos, alega  que o aborto causa “outra ferida”. Por um momento, a título de argumentação, digamos hipoteticamente que ela está com a razão – o que não é o caso, não se pode generalizar emoções assim, cada mulher se sente de um jeito depois, segundo a ong Women Help Women, que lida com isso na linha de frente diariamente, a maioria sente é alívio e não permanece com sentimento negativo depois do turbilhão de sentimentos iniciais, e a eventual possível “ferida” tem muito mais a ver com o julgamento social de uma sociedade atrasada, incriminatória e preconceituosa; é claro que ninguém solta foguetes e dá festa porque vai fazer ou fez um aborto, há sangramento e dor envolvidos, a decisão tem que ser tomada de forma rápida, certamente é um processo físico e psicologicamente tenso, que pode abalar bastante algumas mulheres, mas informação mostra como a coisa não é como dizem –, qual a solução que ela propõe para então não causar “outra ferida” na mulher que foi estuprada? Aquelas que precisarem, consultar com um psicólogo depois? Claro que não, imaginem só, ela propõem, pasmem: parir o filho do estuprador! Que beleza! Se não quiser criá-lo depois, “basta” dar para adoção! (Elas ficam felizes quando as mães decidem criar, o que é uma coisa que eu tenho dificuldades de entender, salvo quando penso na realidade da adoção, onde crianças negras são preteridas de forma naturalizada, onde as mais velhas praticamente não têm chances, crescendo, muitas vezes, como animais em orfanatos de péssima qualidade, em meio a violências de todo tipo. Mas não é no que elas estão pensando). Se isso não causar uma ferida em alguém, eu não sei o que isso significa. Como alguém racional pode dizer que, por exemplo, abortar uma massa de células nas primeiras semanas de gravidez, que se assemelha a um pequeno coágulo, pode ser mais “ferida” do que gestar por nove meses e parir um filho indesejado, fruto de tamanha barbárie?! Que de duas, uma: ou a mãe sentirá remorso/culpa, possivelmente pelo resto da vida, por ter dado a criança, ou lembrará do estuprador sempre ao olhar para o filho. Isso sim é causar “outra ferida”! É tratar unha encravada com tiro de bazuca! Mas veja o ponto da nossa questão, uma mulher que engravidou a partir de um estupro e por algum motivo (que me escapa a compreensão, como já disse) quer ter esse filho, tudo bem, ninguém propõe que ela seja obrigada a abortar, o problema é que eles querem que a lei volte a obrigar todas as mulheres (e crianças!) a parir filhos de estupradores! Isso seria um segundo estupro! Sério, como dizia Raul, “pare o mundo que eu quero descer”! Enquanto estamos lutando para que a razão seja ouvida e que todas as mulheres possam abortar (até a 12ª semana) por motivos próprios, há esses lunáticos querendo voltar para as cavernas! [Alguns exemplos dessa insanidade já em tramitação: 1, 2, 3]. Já que eles não conseguem ver a diferença entre algo em potência e em ato, um desses idiotas poderia dizer: “pelo menos ela não causou a morte de ninguém”, sem perceber como isso pode ser contraditório às próprias premissas deles, uma vez que se considera junção de células como uma criança/alguém, poderíamos imaginar uma situação em que essa “criança” venha a ser um estuprador e assassino de suas vítimas quando adulto (inclusive muitos geneticistas diriam que ele tem mais chances de ser estuprador, tendo em vista o seu progenitor – claro que essa não é nossa razão para se abortar, nem estamos afirmando que concordamos com essa corrente, vale mencionar que o próprio estudo da genética nos mostra como tudo é mais complexo, a importância do ambiente e os multifatores para um gene se expressar, antes que surja um desinformado que não sabe interpretar texto), aí o “cálculo” deles não ia bater muito bem, né? Claro que esse é um argumento fraco, apenas para mostrar como a afirmação do vir-a-ser não pode ser tomada como base. Mas não precisamos chegar a tanto, “homicídio de zigoto” já é uma piada pronta. Em suma, o que importa na questão do aborto é o que algo é, não o que esse algo pode eventualmente vir a ser. Os caras são contra uso de células-tronco embrionárias (em outras palavras, gametas que não passariam disso se não fosse um laboratório) pela mesma razão. É inacreditável! Mesmo! Ir contra a descriminalização do aborto já é total irracionalidade, defender que voltem a obrigar as mulheres estupradas a gerar filho do estuprador então é demência mental!

      E mesmo nos casos que não são devido a estupro, se aceitarmos, apenas a título de argumentação, que aborto necessariamente causa uma “ferida”, uma gravidez indesejada, causa duas, uma na mãe e outra na criança, que quando for uma criança de fato, muito provavelmente não terá um ambiente salutar ou uma educação aceitável, e que pode estar inclusive, como já discutimos, morrendo de fome e frio, jogada ao relento, sem a mãe nada poder fazer. Mesmo aquela mãe pobre que não quer dar a criança para a adoção e diz “vou dar duro e criar esse filho” – atitude que pode funcionar em alguns casos, no mais das vezes não, e quando "funciona" quase sempre é de forma muito aquém para não perpetuar o ciclo de problemas nas próximas gerações –, o insano sistema capitalista é cruel, ela trabalhando já terá que passar necessidades para comprar as coisas para o filho, quase sempre precisando de ajuda, e se, por exemplo, ficar doente e não puder trabalhar mais, seu filho passará necessidades básicas; imaginem que “ferida” será não poder comprar um remédio para o filho, hein?! Um dia desses vi um casal na rua passando fome, pedindo em frente a um restaurante, a mulher grávida de uns oito meses, prestes a colocar mais um filho na rua e ninguém dando nada, fui e voltei, em um intervalo de três horas, eles estavam no mesmo lugar, na mesma situação, eu entrei no restaurante (o que se quer os deixam fazer, né!) e perguntei ao gerente se ele não tinha sobras, ele me respondeu que era para falar com eles para esperar até 5:00 da manhã! (Era por volta de 1:00). E provavelmente só não disse um sonoro "não" por medo de eu querer pagar para eles comerem lá. Comprei um biscoito e dei para eles, que devoraram como ratos. Em outra ocasião vi um sujeito em frente a uma farmácia pedindo para comprar um pacote de fraudas, exausto de tanto suplicar, repetindo a mesma frase, uma centena de vezes, até que uma senhora resolveu comprar para ele, da mais simples e barata. Cenas que vemos todos os dias, naturalizadas por essa sociedade consumista. Mas isso não causa “ferida”, né?! Sinceramente, eu nessa situação de rua já teria partido para o mata ou morre há muito tempo! Em uma palavra, não se trata de boa vontade, infelizmente o mundo não é assim. Ninguém está propondo aqui obrigação do aborto, mas, se essas mulheres escolhessem abortar, elas deveriam ter o direito de fazer com segurança e sem ser consideradas criminosas (ricas não passam por isso, devido ao dinheiro tem sua escolha respeitada), como é possível alguém racional não entender isso? Não vou estender mais o que disse sobre o futuro provável que terá essa criança, é chover no molhado, mas vejamos essa questão da adoção: ao contrário do aborto que é realizado em poucas horas, a gestação dura 9 meses, com a mãe pensando diariamente na vida que não pode dar para a criança, enquanto vai fazendo todos os exames de pré-natal e se apegando, pensando no futuro bebê, sentindo o peso diário no seu corpo, vendo sua barriga crescendo, gerando traumas inomináveis por abandoná-lo, isso sim é algo que marca toda uma vida de maneira drástica! Os babacas que são contra o aborto, apesar de continuarem insustentáveis em todo caso, deveriam antes no mínimo criar condições para que essas mães criassem seus filhos  não seria argumento, porém a vergonha seria menos abissal , mas coerência não é uma palavra que existe no dicionário deles, ao contrário, como já mencionamos, são eles os que mais brigam contra as assistências do Estado! Quase a totalidade desses “defensores da vida” de araque são os mesmos que gritam a todo pulmão “bandido bom é bandido morto”. Pode isso?! Contradição é mato!

       Segundo uma mulher “acolhida”, a ong de Campinas ainda tem advogados para mentir, dizendo que “juiz não aprovou o aborto”, ao invés de fazer o papel esperado de alguém que trabalha com a lei, que é deixar claro que o aborto nos casos legalmente previstos não precisam de ordem judicial! Eu realmente não consigo compreender o que se passa na cabecinha de quem defende algo assim; imaginem, uma criança de, sei lá, 10 anos, sendo obrigada a gerar o filho e neto do próprio pai, com chances enormes de nascer com vários problemas congênitos, já que se trata de um incesto, e “criando” esse bebê depois. Que loucura, que aberração! Nesse momento fica explícito como a religião pode ser um enorme mal, pois não tem como uma pessoa de bom senso não ver o absurdo da coisa, salvo se servente de uma fé cega. E vejam, se o objetivo do estuprador for ter um filho (nada impede que seja o caso), se retrocedermos assim, voltando a criminalizar tal aborto, seria como dar um prêmio para o crápula. Realmente eu não tenho mais palavras para mostrar minha repulsa, que mal esse pessoal faz para a sociedade! [Vale ressaltar que qualquer relação sexual com menor de 14 anos, consentida ou não, é considerada estupro (de vulnerável). Felizmente, até o presente momento, em tese, isto é, no texto da lei, crianças que engravidam podem abortar]. Novamente, o aborto continuar ilegal não salva zigotos/embriões/fetos, se sua luta contra o aborto é por isso, você está equivocado, entenda, mulheres vão continuar fazendo aborto sendo ou não crime, a legalização fará que elas não morram, dando condições similares de assistência para quem não tem dinheiro. Você luta pela vida? A maneira mais eficaz de salvar vidas nesse quesito é descriminalizando o aborto. A mãe que morre tem cérebro plenamente formado, pensa, existe! Mas essa você quer ver pagar pelo “pecado”, né?! Por favor, nos poupe da sua mesquinharia.

        Outra bobagem que dizem é: “só quem já nasceu é a favor do aborto”. Essa por pouco eu nem mencionaria aqui, é extraordinariamente patética, só o faço por ela ser tão usada como um “argumento” no meio dos bobos da corte. Sério, Jênio que criou a frase merda? Você provavelmente conversou com quem não nasceu para saber a opinião deles, né?!... Não ignoramos que o intuito da frase auto refutável é algo mais ou menos neste sentido: “se você fosse o abortado não iria gostar”. Já precipita dizendo indiretamente que todos amam a vida e só veem pôneis e arco-íris a todo momento, ou ainda tem a presunção tamanha para considerar que o Cosmo necessita da sua insignificante existência (provavelmente, se fosse algo possível, não seria muito difícil convencer a maioria das “almas” a não nascerem, ao mostrá-las as incontáveis misérias da humanidade), mas não vou entrar nesse mérito, digamos que seja o caso, para refutá-lo de forma cabal. Se qualquer pessoa adulta fosse um embrião/feto abortado antes da 12ª semana não faria qualquer diferença enquanto tal, não seriam quem são, não existiria um “eu” para gostar ou não do que fariam, do que são, não haveria cérebro para ser capaz de tal juízo, e ainda, o que constrói alguém não é só o nascer, mas todo o ambiente, suas experiências de vida e escolhas. Quem bebês serão quando adultos já é uma incógnita, imaginem então embriões ou fetos desprovidos de cérebro/sistema nervoso, nem são algo que pode ser legitimamente chamado de ser humano. Gostar da existência já implica existência, não podemos dizer que existe um antes ou depois para julgar, somos o que somos apenas enquanto existimos, como seres pensantes. Por exemplo, não querer morrer é diferente de querer nascer / existir, no primeiro existe um eu pensante, no segundo, até que prove o contrário, não (sem apelo metafísico é o que nos cabe dizer), logo, a segunda sentença não tem se quer sentido. A frase idiota em questão tem um apelo enviesado para nosso instinto de sobrevivência, sentimento esse de outra ordem que acaba por ligar a não existência do ser que conheço, eu mesmo, por isso pode ter uma cara de argumento inicialmente. Mas esse ser, que constitui um indivíduo, segundo toda a experiência passada, precisa de um cérebro aceitável para existir, de forma que ele não existe como um ser humano antes disso, é tal apenas em potência, como já discutimos, ademais, esse eu agora que preza pela sua existência é um constructo ao longo do tempo, a semente dele existir, não significa que ele irá existir como se formou. Ora, se fossemos pensar as coisas nessa linha teríamos que dizer que seria uma maravilha a mãe de Hitler ter abortado! Mas isso é ridículo, apelo do mais baixo ao sentimentalismo. Em uma palavra, não se deve abortar seres humanos, que enquadram na essência desse conceito, a condição mínima para eu ser eu, para existir enquanto um ser humano, é ter um cérebro/sistema nervoso formado, e se for o caso, não defendemos o aborto! Por isso estamos falando de legalizar até a 12ª semana (três meses de gestação), onde há uma margem de segurança enorme, como mostramos acima. Enfim, essa frase não seria diferente de dizer "só quem já nasceu é a favor de anticoncepcionais", ou "só quem já nasceu é a favor da ligadura de trompas e da vasectomia", ou até "só quem já nasceu é a favor da masturbação"! Como se não existissem pessoas que querem ter filhos! Ser a favor aqui é ser a favor do direito, não da obrigação. Agora, se você está achando que até zigoto escreve tratado filosófico para não ser abortado por ter "alma", e que suas opiniões particulares tresloucadas tem que ser lei, não há muito que fazer, é como discutir com quem acredita que o quadrado tem três lados e que é um rei.

        Em todo tema existe gente falando as maiores bobagens com ares de saber e no caso do aborto não é diferente, indo inclusive à Comissão de Direitos Humanos do Senado, como a dentista Isabela Mantovani ( https://www.youtube.com/watch?v=UVG6gFN3Sdc ) – via de regra uma dentista não tem muito para falar sobre essa questão, convenhamos, mas não vou fazer como ela e cometer a falácia ad hominem, o que ela faz para criticar pesquisas sobre o número de abortos no Brasil, atacando basicamente a pessoa/grupo que as fez. Ainda que o grupo seja suspeito, não invalida necessariamente os números. Ela está criticando os cálculos e a possível parcialidade dos pró-escolha e faz o “cálculo” dela, chamando os espectadores para acompanhar e tudo mais, com aparência de fontes seguras e ridicularizando os outros, tomando como base um “e a gente sabe”, citando a médica Elizabete Kipman, que em matéria de parcialidade, é simplesmente coordenadora nacional de bioética do movimento "Brasil sem Aborto", militante inclusive para a proibição do aborto de fetos anencefálicos! Como assim ela critica a parcialidade e menciona alguém que mais parcial impossível?! Inacreditável, né? [A propósito, a médica citada também discursou na ocasião, conseguindo ser pior que a dentista, na fala dela citou uma passagem de Freud (falácia apelo à autoridade), ou melhor, ela disse ser de Freud, não sei, para “provar” que mulheres que fazem aborto sofrem psicologicamente – por favor, alguém dê um livro atualizado de psicologia para ela que envolve de fato essa questão! Na época de Freud esse tema não tinha o rigor devido. Principalmente um que mostre pesquisas com número considerado de mulheres e o impacto do julgamento social na vida das pessoas. Em uma sociedade que não considera o aborto algo do "demônio", que não considera a mulher que aborta como criminosa, que entende que há uma enorme diferença entre um embrião/feto até a 12ª semana e uma criança formada, que sabe que métodos anticoncepcionais podem falhar, que respeitam a mulher nas suas escolhas, e assim por diante, certamente os problemas psicológicos nessas mulheres são muito menos frequentes e, quando existem, normalmente são bem menores, superado em pouco tempo]. Mas não para por aí, ela quer dar um número preciso de aborto medicamentoso calculando “por 20–25%”, como assim?! Existe precisão sem um número fixo? E pior, veja como esse número é cômico por natureza: que mulher após provocar um aborto e está tendo uma complicação chega ao hospital e diz que provocou o aborto para ainda poder ser eventualmente criminalizada? O motivo preenchido na ficha de internação obviamente terá o mínimo revelado. (O que logicamente faz do número real de abortos provocados serem de fato muito maior). Aí um desinformado pode estar pensando, “mas provavelmente eles fazem um exame de sangue, ou qualquer coisa que o valha, para saber isso, ao invés de confiar no que diz a paciente”, NÃO, meu caro! Não tem como saber se alguém em complicações após um aborto provocou ele por medicamentos, não há exame para detectar, o quadro é exatamente o mesmo de um aborto espontâneo. Vejam sob que número tirado da bunda ela está fazendo seus “cálculos” para criticar outros cálculos! Além disso, o único estudo sério que ela usa (PNA 2010), que afirma que aproximadamente de 2 mulheres que provocam o aborto 1 foi internada para finalizar o aborto, (números altos no Brasil, onde normalmente as mulheres só usam o Misoprostol, o famoso Cytotec, e em quantidade aquém da necessária; no mundo, antes da 12ª semana, são bem menores, por volta de 25% – os números usando os dois medicamentos atuais então, Mifepristona seguido do Misoprostol, não chega a 3%  de complicações), na versão atualizada (PNA 2016), diz também que as internações na rede privada não entraram em conta, e propõe a forma justa de fazer o cálculo, de acordo com os levantamentos que realizaram em todo o país, onde há ressalva semelhante a que a energúmena faz, cito: “Essas estimativas utilizam cenários em que 16%, 20% ou 28% das mulheres que abortaram necessitaram de hospitalização por complicações, multiplicando por 6, 5 ou 3,5 o número de internações por aborto. Os resultados das PNA 2010 e 2016 sugerem que esse fator deve ser mais próximo de um valor entre 1,3 e 2 do número total de internações, isto é, depois de corrigida a ausência de notificação da rede privada. De todo modo, a PNA 2016 permite, como mencionado acima, uma estimativa direta do número de abortos em 2015, 1,435% da população feminina (18 a 39 anos, urbana e alfabetizada), sendo necessária extrapolação para a população analfabeta, rural e outros grupos etários.”. A conclusão é que: “Aplicando-se a taxa de aborto no último ano, o número de mulheres que o fizeram somente no ano de 2015 seria de aproximadamente 503 mil. [Pesquisa Nacionalde Aborto 2016. Debora Diniz. P. 656]. Logo, o número real de abortos realizados por ano no Brasil é pelo menos 5 vezes mais do que ela disse. Se for citar, ora, cita direito! E esses números não são dos institutos de pesquisa que ela critica (ela mesma não nega o rigor do PNA).
       Ela elenca cinco pontos, o primeiro é este que acabamos de refutar, sobre o número de abortos. O 2º, 3º e 4º, são basicamente referentes a números nada confiáveis para dizer que o aborto aumenta vertiginosamente com a legalização, sem dar quaisquer fontes – a pesquisa dela é tão mal feita que, além de escolher alguns poucos países a dedo e dar números errados, ela se quer colocou os números básicos (ainda que errados) no caso da Suécia, e na sua fala vai contra o próprio gráfico que ela apresenta, onde mostra o aborto caindo de forma drástica nos EUA, depois do aumento inicial, e ela finge de égua! Podemos pegar os dados da época em que ela disse essa bobagem (2015), mas não faz muito sentido focar em um ou outro país nessa questão, o importante é olhar o todo, o mundo, e sobre o todo, há um estudo feito pela OMS, publicado em 11 de Maio de 2016 no periódico científico Lancet, onde fica demonstrado como o aborto caiu em países desenvolvidos, onde é legalizado, e aumentou em países subdesenvolvidos, onde é restrito/proibido. Se ela quer país que fez acompanhamento periodicamente, por que será que ela não disse nada sobre Portugal, que tecnologicamente seria perfeito para a análise, já que a legalização em tal país é relativamente recente? Será que é porque a taxa de abortos caiu 10% lá?! Nada, ela deve ter "esquecido", né? Ela critica os números oficiais de abortos dados pelo Governo do Uruguai antes da legalização, mas não diz que após a legalização, onde a contagem é automática, lá tem um baixíssimo número de abortos, 12 para cada 1.000 mulheres (entre 15 e 45 anos), abaixo da média dos países desenvolvidos, que notoriamente é menor e vem caindo mais do que nos países em desenvolvimento. No entanto, eles acreditam que isso acontece porque nos países desenvolvidos o aborto por escolha da mulher é apenas parte de uma estrutura muito maior, onde há conscientização/educação, planejamento familiar, acesso à saúde e aos anticoncepcionais. Contra fatos não há argumentos. Mesmo quando há um aumento inicial após a legalização, ele tende a cair com o tempo, pois essas mulheres atendidas tem mais informação e o uso de anticoncepcionais se faz mais presente. O tema deixa de ser um tabu, consequentemente a ignorância do que gira em torno dele cai. Esses sim são números com fontes. [Vejam só, ela que reclama das fontes, não cita fontes! Vamos rir]. Caem assim os pontos 2, 3 e 4 da fala dela, que na verdade não passam de mais do mesmo, mas é incrível como essa palestra merda serviu de "fonte" para muita gente repetir besteira.
        No 5º ponto, não menos absurdo, ela pretendeu diminuir o drama das mortes que acontecem em decorrência de abortos mal feitos. Não sei como uma pessoa tem coragem de fazer esse desfavor, mas enfim, mostremos a falta de cabimento. Como dissemos acima, segundo a OMS47.000 mulheres morrem no mundo por ano em decorrência de abortamento em condições inseguras, é um problema muito sério mesmo! Mas qual o absurdo que vemos agora na fala da dentista? Ela faz um gráfico para tentar desqualificar a gravidade, comparando morte por aborto com outros motivos, o que não faz sentido, é óbvio que morre muito mais mulheres de complicações no parto, por exemplo. O ponto não é olhar a quantidade em relação a todas as mortes maternas, mas focar naquelas mortes que seriam evitadas se o aborto no Brasil não fosse crime e realizado de forma segura e gratuita pelo SUS. Como dizemos no começo do texto, o aborto feito nas 12 primeiras semanas e com as duas medicações recomendadas atualmente é extremamente seguro, diz o site Women Help Women, onde há indicações para as respectivas fontes: “o risco de complicações é pequeno (2-5 mulheres em cada 100) 11 e a necessidade de cuidados médicos de emergência (que podem ser necessários no caso de hemorragia excessiva) é extremamente rara (1 em cada 2000 mulheres).1,15. Sendo assim, um aborto legal, feito dentro do período recomendado, praticamente zeraria as mortes causadas por complicações, esse é o ponto importante, essa é a comparação que faz sentido!              
        Ela termina falando que “a legalização do aborto interessa aqueles que querem controlar o crescimento populacional no mundo”, não é o caso, tal interessa às mulheres, mas quando que se atentar para o crescimento populacional desenfreado, em um mundo com recursos escassos, com já 7,6 bilhões de habitantes, previsão de mais de 11,2 bilhões até o final do século (Ined), é um problema?! E nos segundos finais ela ainda solta a clássica estultice “matar o bebê”, sério, não vou comentar mais sobre a desproporcionalidade e a falta de critério válido ambulante que são esses sujeitos que veem assassinato em zigoto. Apenas friso que não é por acaso que aqui a pesquisa de células-tronco embrionárias e tudo que acarreta essa temática encontra tanta dificuldade de aceitação, já que esses veem ser humano, "alma", em encontro de gametas.
       A "pró-vida" (termo sensacionalista e equivocado por natureza) está redondamente enganada, entretanto, a quantidade aqui não é relevante, o ponto relevante é evitar a morte de cada mulher, um ser humano pleno, pensante, vidas concretas perdidas em situações não necessárias. Se fosse apenas uma mulher, ainda assim seria justo dar as condições para que ela escolha sem criminalizá-la, para que ela não morra! Comparar o número de mortes por aborto provocado com outras mortes sempre só desviará o foco, além das mortes, ainda tem diversos casos de sequelas físicas e esterilidade que não entram em conta nesses levantamentos. Por tudo isso, fica aqui demonstrado que o racional a se ter em sociedade é o aborto de fácil acesso para todas. Mas se você ainda por algum motivo é contra, repito à exaustão, não faça você o aborto. Você pode inclusive continuar pregando contra o aborto e tentando convencer toda mulher que conhecer, mas isso é uma coisa, outra coisa é você querer que elas continuem sendo criminalizadas por não compartilhar a sua interpretação da situação. Em síntese, quer ser contra o aborto, sua posição não pode ser sustentada por argumentos válidos, mas tudo bem, que seja, mas não seja contra o direito de abortar, não seja contra as mulheres pobres, já sujeitas a todo tipo de precariedade social. 

          Finalmente, você que percebe que essa discussão já deveria ser coisa do passado, se coloque contra o retrocesso para a idade das trevas que é o tresvariado Estatuto do Nascituro e quaisquer outros projetos nessa linha que pretendem tornar aborto em crime hediondo (sim, existem essas aberrações inomináveis!). Fique atento à decisão do Supremo Tribunal Federal, que pode mudar o rumo da questão do aborto no Brasil, para a ação feita pelo PSOL, no dia 06 de março de 2017, pedindo ao STF que o aborto feito até a 12ª semana não seja considerado crime. Há esperanças, lembremos que em Novembro de 2016 a 1ª Turma do STF já decidiu pela descriminalização do aborto realizado nesse período.
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