segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O mundo não tem sentido. E agora?

       “Desceu sobre nós a mais profunda e a mais mortal das secas dos séculos – a do conhecimento íntimo da vacuidade de todos os esforços e da vaidade de todos os propósitos”. (FERNANDO PESSOA. Livro do Barão de Teive – Educação do Estoico. Livro(s) do desassossego, § 7).

       O mundo não tem sentido sensível, e salvo para os místicos, aqueles que dizem ter contato direto com o sobrenatural (não os depreciando, respeito-os, só não tenho razões para crer como eles ou na literalidade dos relatos deles, mesmo sabendo que muitos são sinceros), o sensível é tudo o que temos. Não há como racionalmente fugir disso. O sentido fora do sensível é possível, mas como diz Albert Camus no livro O Mito de Sísifo, todo “sentido” que nos ultrapassa, isto é, que supostamente estaria fora do mundo vivido, é mera questão de fé, uma apelação, um “salto no vazio” – expressão de Kiekegaard, reconhecido filósofo citado pelo autor, outro a reconhecer da maneira mais profunda e sem volta a falta de sentido. O mistério que o mundo apresenta, a nossa ignorância e ao mesmo tempo a nossa bela capacidade de pensamento, que se reconhece ignorante, que soa muito aquém do fim miserável que constatamos, e o fato de todas as hipóteses metafísicas serem logicamente possíveis, não são capazes de nos dar qualquer sentido concreto. A possibilidade, a interrogação, não faz um sentido real.

       Se tudo é contingente (indico a leitura do A Náusea de Jean-Paul Sartre para vivenciar essa questão – a palavra é essa mesmo, vivenciar, pois o livro provoca esse sentimento), se não há razão visível para a existência individual e para a existência da humanidade – e ainda, no eterno repetir das coisas, dos problemas humanos, em nossa mais palpável fragilidade, isto é, podemos morrer a qualquer momento, como uma peça de teatro que pode terminar antes do fim, sem explicação, de repente, caindo no esquecimento com ou sem “tarefa cumprida” (se é que isso existe), como ilustra Heidegger em Ser e Tempo, movido pela magnífica obra de Tolstói, A Morte de Ivan Ilitch –, que diferença fará? Se isso ou aquilo conseguirmos, se isso ou aquilo formos ou não, o que importa ao fim e ao cabo?

       (Informo que esse não é um texto de discussão técnica, quem não tem contato com a filosofia pode continuar a leitura tranquilamente. Cito filósofos sim, pois estou sempre na companhia deles, são gigantes para nos ajudar a pensar, mas não se trata de citações que só iniciados podem compreender. O texto é para todos.).

       Recentemente fiquei sabendo que um amigo, Helder Skelter, como ele gostava de ser chamado, se matou (foto do texto em homenagem a ele). Triste. Lembro como se fosse ontem da nossa última conversa, sobre a desigualdade social e a “vida de aparências”. Ele havia sumido, não estávamos trombando nos lugares que a gente frequentava, ele não postava nada na internet, tentei ligar um dia e deu fora de área. Só fiquei sabendo muito tempo depois, quando encontrei com um dos nossos amigos em comum (que também não ficou sabendo na época). Ele publicou um texto no seu blog, “Se estou deprimido”, na ocasião eu apenas havia passado o olho, mas deu para notar que se tratava de uma fase muito ruim na vida dele; depois, relendo agora na íntegra, era literalmente uma carta de despedida. Ele começa o texto assim: “Hoje eu sou aquele inseto de carapaça pra baixo, agitando as pernas, perdido”. Eram muitos problemas e dificuldades, mas a falta de grana, no caso dele, foi determinante. Dinheiro aliviaria alguns males, faria ao menos esperar um pouco as coisas melhorarem, de forma que é sim mais uma perda para se colocar na conta desse sistema capitalista cruel e inútil (obviamente não estou falando que dinheiro é solução para nossos males – pelo contrário, prego o fim dele –, mas é um mal necessário para manter-se vivo enquanto existir esse sistema doentio; obviamente também não estou dizendo que quem tem grana não se mata). Se você leu o texto dele, percebe que era um grande crítico dos valores da sociedade atual; não tenho pretensão de resumir seu pensamento, até porque possivelmente ele acharia tal tarefa patética, mas o caso dele evidencia como é destrutivo esse caminho que estamos tomando enquanto humanidade, tirando tudo de quem já não tem mais nada. Legitimamos um modelo de vida esmagador fundamentado na ilusão. A vida tem preço em cifrões nesse modo insano de existir que estamos mergulhados.

       Dizia meu autor preferido de literatura, Dostoiévski: "E as pessoas abanam a cabeça e murmuram: 'Como os anos passam depressa!'. E perguntam ainda: 'Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver ou não?'. 'Olha', dizemos para nós mesmos, 'repara que frio faz neste mundo. Basta que passem mais uns anos para que chegue a espantosa solidão, a trêmula velhice que traz consigo a tristeza e a dor. O teu mundo fantástico há de perder então as suas cores, murcharão e morrerão os teus sonhos, e, como as folhas amarelas que tombam das árvores, também eles se desprenderão de ti...' Ó Nástienhka! Que tristeza então vermo-nos sozinhos, completamente sozinhos, e não termos de que nos lamentarmos... nem isso, ao menos! Pois tudo aquilo que perdemos nada era, nada mais do que um zero, um simples zero: apenas uma ilusão." (DOSTOIÉVSKI, F. Noites brancas. L&PM 2008. P. 48). Noves fora, a vida é quanto peso vai se acumulando nas costas. Por isso nosso saudosismo para com os dias da infância. Não é exagero dizer que o resto é maquiagem. Quanto mais se vive, mais se percebe que os belos momentos são de fato raras rosas que nasceram sobre cinzas, quem diz o contrário mente, mente por ignorância, por falta de vivência, por incapacidade de abstração ou por necessidade. O que tem de indivíduos que se pararem um segundo se deprimem sem saber o que fazer é surreal, precisam de “viseira”, da aprovação constante do grupo, típico homo labore, sofre e causa sofrimento por onde passa. Pessoas que trazem paz genuína no olhar são tão escassas que sobressaltam da multidão, do caos... O mundo não é justo. Não há final feliz (sofrimentos indizíveis acontecem em séries; a leitura de Cândido de Voltaire é indispensável, no romance a crítica ao otimismo é sem igual). Crianças e jovens morrem em agonia, monstros vivem e morrem de velhice; há dor extrema, sofrimento inimaginável, tristeza e, sobretudo, pouca esperança para mesmo amenizar tais males durante a vida, quando acontece são paliativos; ainda que você viva cem anos em pleno envolvimento político (a verdade é que dificilmente viverá tanto se for tão ativo, pois provavelmente os opositores conservadores o matarão ou silenciarão antes), não verá muito fruto de suas lutas, se tiver sorte verá alguns, o que é muito bom, mas serão poucos, principalmente em vista do que sempre resta a alcançar. E se num futuro distante, devido às suas ações ideológicas e de outros que continuaram seu caminho depois, finalmente a humanidade aprender a viver em harmonia e justiça (o que seria louvável e muito bom, de forma que esse é um alvo a se manter para fins práticos), não será o “sentido” que daria razão de fato a isso tudo, a esse mundo contingente, que continuaria sendo dispensável; além disso, essa estabilidade pacífica deveria ser eterna, mas é quase total ficção pensar num mundo em que a humanidade não venha a findar com o tempo, e mesmo os robôs-supercomputadores que poderão guardar nossa cultura e história por mais tempo, que eventualmente poderiam “sobreviver” ao colapso do nosso sistema solar, não sobreviveriam ao colapso do Universo, o chamado Big Crunch, salvo uma tecnologia “divina” que teria de ser desenvolvida com o indizível poder de controlar esse processo inevitável em proporções impensáveis, controle sobre uma distância de mais de 13,7 bilhões de anos-luz, o que é mais que improvável, mas quase impossível por tudo o que nós conhecemos – só não dizemos ser impossível tendo em vista que não se pode afirmar cabalmente nada em relação ao futuro, só por isso permanece sendo uma hipótese. Em uma palavra, essa utópica tecnologia teria que ter simplesmente o poder de controlar o Universo. Nós, macacos burros que brincamos de ser “inteligentes”, já teríamos ido para o saco há muito tempo, fato. [Antes que alguém objete, digo: sim, se trata de uma teoria, mas isso é tudo o que temos: teorias; na verdade não sabemos nada, estamos limitados à condição humana, aos fenômenos, isto é, acessamos a coisa conforme aparece e não a Coisa-em-si, como diria Kant. Não sabemos nem mesmo quem somos, se existe outros fora da minha mente, se o mundo exterior é ilusão, se existe o Eu (substancial), sintetizando, não temos qualquer ciência de fato. Isso tira ainda mais o chão, pois solapa as pseudo-verdades dadas pelos sentidos, descobre-se portanto que os sentidos são incapazes de nos dar qualquer conhecimento do que seja a realidade pura, de forma que a última pode ser qualquer coisa]. E mesmo assim, será que a eternidade da forma humana seria um sentido válido? Viver pela “eternidade do pensamento humano”, convenceria alguém? Segundo Homero, no livro A Ilíada, Aquiles foi para a guerra de Tróia sabendo que ele ia morrer, jovem, mas como consequência seu nome seria lembrado pela eternidade; depois, no livro A Odisséia, do mesmo autor, vemos Aquiles “arrependido” dizendo que é melhor ser qualquer um entre os vivos do que estar no Hades (mundo dos mortos). Falamos de Aquiles até hoje, três mil anos depois, se ele é mito ou não, aqui não vem ao caso. Mas, pelas razões apresentadas acima, é praticamente impossível que um dia a memória sobre Aquiles não desapareça. Já dizia até o escritor bíblico:Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois” (Eclesiastes 1: 11). E mesmo que não fosse o caso, será que vale a pena existir para ser uma memória? Encarar tudo o que encaramos para unicamente sermos lembrados? Uma coisa é fato: não estaremos vivos para apreciar essa fama.

       Que cenário apresento, não? Muitos já estão com os ataques infundados ad hominem na ponta da língua contra minha pessoa – que é apenas mais uma forma de fugir ao tema, afinal, ao dizer “esse sujeito deve ser muito infeliz”, e coisas do tipo, para não encarar os argumentos, você está tentando transferir suas misérias, mascarar a sua frágil realidade, que na verdade é a realidade humana, lamento. Mas esse cenário fatalista apresentado aqui já fora constatado por muitos antes de mim, salvo uma coisa ou outra, de certa forma, posso dizer que apenas os reproduzo (corrente de pensamento conhecida como Niilismo).
       Talvez você ache que isso é devaneio de filósofo, mas seja sincero consigo mesmo e analise as coisas como elas são, observe os fatos, o frio apresentar do mundo, verá que não é o caso. Todos nós temos a capacidade de pensar, e como diz Camus, “começar a pensar é começar a ser minado” (CAMUS, A. O Mito de Sísifo. P. 24), basta mirar a questão – guardada as devidas proporções, é similar à escolha da pílula vermelha em Matrix. Se você leu até agora, se manteve os olhos no texto não obstante a opressão que ele pode eventualmente causar, quer saber mais sobre a questão derradeira, aquela palavra que sua mente pode até ter tentado esquivar ao implicar de alguma maneira a sua pessoa: o suicídio, o fim próprio deliberado. É crucial falar abertamente disso. (Relaxe, se você conhece o autor que vos escreve, não se preocupe, antecipo que não estou planejando matar-me, esse texto não se trata de uma carta de despedida ou qualquer coisa que a valha; assim, também espero que você não se mate ao problematizar o tema em questão – na verdade, concordo com Camus quando ele diz que o suicídio meramente filosófico é coisa rara –, e não digo isso prepotentemente achando que meu texto tem um pica poder, mas porque o tema não permite a indiferença, o tema sim é corrosivo, abalador por natureza; prova que você de uma forma ou outra já pensou sobre ele, só não quis desnudá-lo, normalmente é um assunto que não se discute de forma aberta, entre amigos, pois cessa com as risadas, constrange, entristece, fere. Quase sempre logo mudamos de assunto. Contudo, dizendo francamente, o efeito dessa análise pode ser mesmo inverso, principalmente se você se encontra em angústia, talvez o ajude a não por um “fim às suas dores”, mas o faça encontrar sua própria maneira autêntica de viver, a lá uma obra de arte (como diz Nietzsche), que não tem sentido, mas que é em si mesma, por si mesma, que vale a pena enquanto durar, sendo o melhor que puder a cada momento, com intensidade, independência, beleza própria e vontade de potência. Afinal, o presente é tudo o que temos.).

       Escrevi um artigo publicado na revista Contextura do Departamento de Filosofia da UFMG (Nº 7 - primeiro semestre de 2015) onde trabalho a questão do suicídio filosófico perante a falta de sentido – isto é, mediante apenas o absurdo do mundo, sem sofrimento físico ou emocional –, o ponto é se a vida vale a pena ser vivida mesmo sem sentido, a conclusão é que sim, intitulado: “Entre Sartre e Camus, se há falta de sentido, devo suicidar?” (Também tenho um vídeo/aula onde trabalho a mesma questão: CRESÇA 13: Morte, Absurdo e Suicídio). Mas não discuti propriamente sobre o suicídio quando o indivíduo tem o intuito de aliviar a dor. A verdade em relação ao último parece óbvia: se sofro intensamente, porque não me matar se não vejo sentido no mundo, a vida com dor vale a pena num mundo sem sentido? Vamos ser francos, resposta: não.
As circunstâncias da morte do Helder foi o “espanto”, como dizia Aristóteles, necessário para filosofar, triste fato que me fez voltar a trabalhar o tema. Pensei muito sobre as ideias que trocamos, livros e filosofias que discutimos, no pequeno tempo que trabalhamos juntos, nos eventos que encontramos, isso remetia a um mesmo ponto: tudo passa, tudo é efêmero e contingente... Se pararmos para pensar o mundo é dor, dor própria, dor alheia, enfim, o que no fundo aprendemos é somente ignorar a dor. Segundo um dos filósofos de mais tato para as coisas humanas, Michel de Montaigne, buscamos nos distrair, nos divertir com qualquer coisa, para não encararmos nossa condição miserável. Ao passar do tempo, vemos que acertadamente diz a canção de Vinícius de Moraes: “tristeza não tem fim, felicidade sim” – se a felicidade fosse algo comum, não daríamos o valor que damos para os momentos de tal. Vencer a dor completamente é algo que não está ao nosso alcance. Pois a própria finitude é dor, de tal forma que fingimos ser imortais, inconscientemente até, numa tentativa vã de não aceitar nossa realidade mais íntima, a morte, como diz Heidegger. Por exemplo, acostumamos com o findar das pessoas próximas porque é inevitável, todos morre, cedo ou tarde, mas não relacionamos isso intrinsecamente ao nosso próprio deixar de existir, que pode ser no próximo segundo, o mesmo vale para as doenças, para o envelhecimento, para a maldade humana, são dores que vamos ignorando “naturalmente”, criamos até falsas esperanças para não olhá-las nos olhos, para não saber que estão presentes a todo momento (não estou dizendo que a solução seja vivermos aflitos com medo da morte sempre, até porque isso seria paralisante, o ponto é apenas não tamparmos com a peneira essa nossa condição) – o budismo aborda muito bem essa questão: Sidarta Gautama, segundo a lenda, se abateu profundamente ao sair do palácio que o protegia, pois viu esses males de frente, de maneira nua e crua. A existência como um todo, sem as máscaras que colocamos, é consternadora.
       Uma ida ao cemitério, não para enterrar um ente querido, traz alguns sentimentos singulares: silêncio, tudo se resume a silêncio. Tumbas pomposas, outras só com um número em cima, outras nem com número (já nas periferias do cemitério), algumas delas bem pequenas. Covas antigas, novas. Indigentes ou tão bem identificados com menção honrosa, mensagem na lápide e fotos, todos silenciados, todos iguais, como diz o dito popular, “no mesmo buraco”. Jovens, velhos, homens, mulheres, todos como se nunca houvessem existido. O mundo continuando após suas breves existências (seja de um ou cem anos), e assim todos vão passando, ficando para trás, caindo no esquecimento. “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” (MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas. § XXVII). Nomes e sobrenomes, datas de nascimento e morte, é isso, não são nada mais do que isso. Somos nós... Nietzsche fala de nossas ilusões, dessa fantasia de acharmos que somos mais, rebaixa o conhecimento e prepotência humana de forma genial: "Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades, em que ele não estava: quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele." (NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira no sentido extra moral. §1).

       Talvez então o melhor seja morrer jovem, sem preocupação, depois de um dia agradável, prazeres, boa companhia, risos, festa, uma noite de amor. Toda ação gera algum tipo de consequência dolorosa (se não imediata, de forma direta ou indireta, tudo remete ao fim), porque então vivê-las? Cada escolha, uma renúncia; ganhos e perdas. “Viver é muito perigoso”, repete várias vezes o personagem Riobaldo do Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. Tudo é como água, na tentativa de segurar, escapa de nossas mãos... Não sei se é nossa maldição ou benção, mas temos um instinto animal, que ruge, que quer viver, que quer ser (não é por acaso que vemos muitos dizendo que não se matam por falta de coragem). Agostinho diz que “a dor de ter perdido não supera a alegria de um dia ter possuído”, sem esses objetivos mesquinhos, fantasiosos e completamente sem sentido de “vencer na vida”, “cidadão modelo, férias na Europa, ter pistolão” (criticado pelo saudoso Renato Russo na música Química) e afins, característicos de quem não quer enxergar a realidade (onde ao fim tudo é vão), talvez seja isso que nos move, esses momentos de alegria que fazem os duros serem suportáveis. [Não estou dizendo que não devemos fazer planos (ou agir inconsequentemente), tais são inegavelmente válidos para a vida prática, para o bem estar em comunidade, o ponto é que não são capazes de dar o sentido em questão, sempre estaremos buscando um próximo alvo, e um próximo, e assim por diante]. Camus diz que são três coisas que o mantém vivendo no mundo absurdo: sua revolta, sua liberdade e sua paixão (mesmo sabendo que tais não são capazes de satisfazer qualquer sentido último); concordo com ele, acrescentaria as coisas simples da vida, até porque boa parte do estresse que temos é com bobagens e barreiras invisíveis criadas pela nossa própria mente para se amoldar ao olhar do outro – não que o outro não seja importante, ele só não pode ser um permanente entrave para tudo o que fizermos. Lembro agora do romance “A Culpa é das Estrelas” (alguns spoilers nas sentenças a seguir), ali é representado o sofrimento intenso, a dor da doença e da perda, mostra como o mundo é injusto, a morte prematura, jovens não podendo ser jovens. Mas mesmo assim os personagens vivem o tempo que têm da melhor forma possível, da maneira mais intensa, verdadeira, como eles dizem, de forma infinita, independente do “tamanho do seu infinito”. Quando vi eles dizendo isso me lembrei desta frase genial de Carlos Drummond de Andrade: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundos, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata”. Essa disposição talvez seja a busca mais legítima que devemos ter: viver intensamente cada momento. (Intenso aqui não é agitado, mas sim pleno, o simples parar para não fazer nada, respirar tranquilamente, olhar a paisagem, absorto ali, pode ter toda a intensidade do presente). Pois não se engane, sempre haverá “E agora José?” em nossas vidas.

       Sinceramente, salvo se um deus apareceu para você, ou algo similar para confirmar, e tenha lhe revelado a “Verdade” indubitavelmente, provando a existência da vida após a morte, dando-lhe detalhes dos destinos das almas, você não deve ter medo do que as religiões clássicas ou os textos “sagrados” dizem sobre o que acontece com aqueles que se suicidam (quase sempre os condena a torturas escabrosas). Não nego que as crenças religiosas alternativas que não vivem do medo e da ameaça possam ajudar seus fiéis, mas sem a iluminação sobrenatural são apenas estórias. Fé por fé não é virtude, é ingenuidade. Crer tão somente porque está escrito num livro antigo então, beira à insanidade; estar predisposto a crer em algo já determinado é muito perigoso, é terreno fértil para o “efeito placebo”. Vale ainda ressaltar sempre que poder ser o caso não significa ser de fato, o caso... A famosa aposta de Pascal (“você não tem nada a perder”) é furada não apenas porque se existe um deus ele pode ser qualquer um, isso também, mas, sobretudo porque o cristianismo demanda um modo de viver, que em suma é uma abdicação da vida. Porque apostar a única coisa que você tem em algo que é apenas “possível” como qualquer outra hipótese imaginável? Porque escolher uma? Ora, é evidente que sua escolha pode não ser a correta! Sempre é possível perder ao se fazer uma determinada escolha. Não devemos crer em algo sem fundamento. Como dito no começo do texto, possibilidade não faz sentido. O medo de existir um inferno e afins não é um motivo válido, é crueldade aos que sofrem: aguentar o sofrimento lancinante no corpo físico para não ser eventualmente punido depois, que horror! E a ideia de que sofrimento purifica a alma é pura metafísica, só o primeiro é um mal de fato, o que você passa hoje. Ademais, seria como aceitar servir um ditador que coloca uma arma na sua cabeça (poupando os que simplesmente o aceitam), só que se trata de uma escravidão em vida para evitar a punição que você não sabe se existe. A propósito, como disse o personagem Ivan Karamázov de Dostoiévski, se for necessário usar o sofrimento de uma criancinha para construir as bases “harmônicas” do paraíso, eu também passo meu ticket. Um (possível) Ser justo e de amor não agiria assim... A sua vida é aqui, agora. É tudo o que realmente sabemos que temos. O resto são apostas sem base (não tome experiências de terceiros para se justificar). É você que deve decidir, só você está e estará na sua pele. Desejo toda força a você, lute, persista, viva pelo que você acredita e ama, “tente outra vez” sim, como diz a bela canção do Raul Seixas, mas não se perturbe ainda mais com esses mitos se eventualmente não ver outra saída. Considere o que nos diz o filósofo do martelo: "a fé não remove montanhas, ao contrário, as coloca muitas vezes onde não tem". (NIETZSCHE, F. O Anticristo. LI). Claro, lembre-se que sempre há um novo dia, que as coisas mudam, que o tempo passa, mas só você pode de fato decidir se vale a pena continuar. Todos nós, mais cedo ou mais tarde, sofrendo ou não, não estaremos aqui, a decisão é sua, não há porque acreditar que sua hora está escrita sem mais.

       Em tempo, a vida pode ser bela mesmo em meio às dificuldades. Não existe um padrão, a “obra de arte” é você que faz. Tomo como exemplo o famoso físico Stephen Hawking (recomendo o filme: “A Teoria de Tudo”, que conta de maneira fascinante a história dele), poucos de nós não desejariam a morte em sua pele, um jovem de vinte e poucos anos, cheio de planos e talento, se ver definhar em pouquíssimo tempo, com os piores prognósticos médicos e expectativa de vida de dois anos. Mesmo numa cadeira de rodas e sem poder falar, ele seguiu em frente, contrariou as expectativas, casou, teve filhos, concluiu sua tese e se tornou um dos maiores cientistas do nosso tempo, ativo e trabalhando até hoje. Mas você também pode seguir em frente mesmo sem grandes feitos e pensar como o personagem Brás Cubas de Machado de Assis, que nos escreve após a sua morte: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” (MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas. § CLX). Nessa escolha não cabe juízo de valores. Somos miseráveis inevitavelmente, mas isso não nos impede de viver. Por isso, reitero: só você pode “colocar na balança” e decidir, só você pode analisar e concluir se vale a pena, independente de padrões e modelos, a vida é sua. Não estou dizendo que não podemos nos espelhar em grandes homens (por exemplo, a persistência de Nelson Mandela pode certamente ser influência para muitos), afinal compartilhamos a “condição humana”, mas sim que não podemos ignorar a particularidade de cada um, o que faz com que todo ser seja único. Finalmente, em meio a sua própria reflexão, tomando seus conceitos, vivência, e exemplos para julgar, “você aprende que realmente pode suportar, que realmente é forte, que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais”. (WILLIAM SHAKESPEARE. O Menestrel). O seu limite pode ir além do que aparenta, como incentiva Shakespeare, é possível se surpreender, mas tenha a consciência livre para julgar, pois você é o melhor juiz da sua vida.

domingo, 16 de agosto de 2015

A hipocrisia óbvia nos "argumentos" da PMerda

A HIPOCRISIA ÓBVIA NOS "ARGUMENTOS" DA PMERDA (em relação às agressões contra os manifestantes sobre o aumento da passagem de ônibus no dia 12/08/2015 em BH):
1- Bloqueio de via: ora, bastaria eles desviarem o trânsito para outras ruas adjacentes ao invés de pedir a missão impossível de liberar a via, em dois minutos (onde o sujeito acha que está para dar um ultimato de guerra assim?!), numa rua estreita como se os manifestantes fossem robôs programados como eles (carros passando em meio a manifestantes, olha o risco de atropelamento em que eles iriam nos colocar!) – da próxima vez que uma árvore cair e bloquear a via, tome cuidado, risco de bala de borracha e gás lacrimogênio. A propósito, "bela" estratégia deles, para liberar uma pista que ficaria bloqueada pela manifestação por 30 minutos no máximo (pois na verdade não a estávamos bloqueando, mas a utilizando, quem parou o fluxo foi a própria polícia - foto), eles fazem esse massacre que deixou apenas uma pista liberada por 5 HORAS! São realmente uns Jênios!
2- Acusações para prender pessoas: eu não vi pedras sendo lançadas e em nenhum vídeo elas aparecem (ainda mais uma fantasma que supostamente bate no coturno do sujeito e sobe pra mão, contrariando a lei da gravidade, e não deixa a menor marca), nem vi denúncia de quebra-quebra no hotel (pelo contrário, o que vi nos vídeos filmados dentro do hotel foi o pessoal com medo, tentando se refugiar, e policiais do Choque os oprimindo, inclusive, embora não tenha sido filmado, relatos de agressões físicas gratuitas; além de um vídeo que mostra um policial que parece ter saído direto dos tempos da Ditadura Militar, dizendo: "quem tiver carteira de trabalho aqui, eu libero" – dispensa comentários a cabecinha e a atitude do sujeito, né?), mas suponhamos por um momento que tal ocorreu, elas teriam sido um revide ao ataque inicial, pois, como eles mesmos disseram, “usaram a força porque o pessoal não liberou a via”, logo, eles começaram a agredir, fato, o que faz com que a desculpa esfarrapada do Tenente coronel de revide seja nula e contraditória; depois, eles são robocops com visão do super-homem para saber em meio a toda aquela fumaça e corre-corre quem são os indivíduos que supostamente jogaram as pedras?! É de fazer rir. A acusação de invasão de propriedade é tão ridícula que pelo visto eles não a usaram mais, até porque se tem alguém que deveria ser enquadrado nesse crime, seria os policiais que invadiram o hotel, pois os manifestantes são cidadãos entrando num hotel, não importa se são muitos, qual o crime nisso?
No mais, quando o que está em jogo é a vida, essas acusações são anuladas, a legítima defesa permite até matar alguém se for para se defender, como todos sabem, ponto. (Quero só ver se a mesma estratégia será usada domingo de manhã, quando a manifestação coxinha destruirá todo o trânsito nas vias ao entorno da Praça da Liberdade). Pimentel, EXPLIQUE-SE!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Sim, JE SUIS CHARLIE!

      Esse texto meu é uma refutação aos argumentos apresentados na postagem do Leonardo Boff intitulada "Eu não sou Charlie, je ne suis pas Charlie", publicada no dia 10/01/2015. Uma das razões que motivaram essa publicação foi o fato dela ter sido censurada no blog em questão, isso mesmo, lá não aprovam críticas ou comentários contrário. Segue o texto:

      Trata-se de uma ingenuidade sem tamanho o que encontramos em tal texto, inacreditável que está sendo divulgado como uma opinião de "bom senso". A refutação a ele é clara, em uma palavra: as pessoas têm direitos, NÃO as ideias.
      É simplesmente inadmissível querer obrigar alguém a respeitar uma ideia (e obviamente a religião não passa de mais uma ideia, ainda que uma ideia querida e amada por muitos, continua sendo só uma ideia). Deve-se respeitar o direito do indivíduo ter e/ou seguir uma ideia, não a ideia em si. Essa é uma diferença básica, primária, religiosos fanáticos fundamentalistas não percebem tal, mas me surpreende a mesma opinião grosseira vinda de alguém considerado "culto". A propósito, bato palmas para toda sátira feita dessas religiões que mataram e torturaram ao longo de séculos (obviamente o Cristianismo incluso), que aprisionam seus fiéis em dogmas obsoletos, que não permitem mudanças, seguindo uma tradição absurda a qualquer custo (p.ex., a forma que a mulher é considerada nos países teocráticos extremistas, é insano), nada como o humor para colocá-las no seu devido lugar.
      Os exemplos de “censura” citados no imbecilizante texto como analogia são ridículos, não tem absolutamente nada a ver uma coisa com a outra, racismo, homofobia, plágio e fomento ao ódio são ataques contra indivíduos (sujeitos físicos) ou grupos de indivíduos, isto é, pessoas de direito, não a ideias ou crenças – como o próprio autor diz: “...sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa”! Claro que podemos nos posicionar contra todo o Islã, ou o Cristianismo, ou o Hinduísmo, ou qualquer outra crença, sim, rir delas e publicar nosso riso livremente, ora, o fato de um coletivo de pessoas apoiarem e adorarem tais não muda o fato de serem apenas mais uma ideia, como já dito. Eu entendo alguém ficar chateado por estarem rindo de uma ideia que ela tanto ama e segue, mas clamar direitos para essa ideia é o cúmulo do absurdo, dizendo que ninguém pode retratar seu profeta, ou brincar com o seu deus/santo, que devem valorizar seus ritos e crenças, fazendo de personagens como Jesus ou Maomé pessoas de direito que devem ser respeitadas e coisas do tipo é mais do que ofender os princípios da liberdade de expressão, é não compreender se quer a racionalidade de um Estado de Direito. Respeitar o religioso não equivale a respeitar o conteúdo da crença religiosa dele.
      Como assim “Não é ‘Não fale’. É ‘Fale, mas aguente as consequências’ ”?! Seria uma aberração inominável um tribunal laico condenar alguém que satiriza uma ideia, crença e/ou personagem religioso, mas o que o autor quer dizer com isso? Que pagar uma multa está valendo? - Já que ele diz que é melhor do que “balas de fuzis ou bombas”? Sinceramente, depois dessa é válido dizer que chega a ser cômico o texto dele. Quanto à discriminação aos muçulmanos que o mesmo relata, é outro ponto erroneamente vinculado (se trata de um problema que infelizmente existe há séculos, notoriamente não começou com a mídia atual); sem dúvidas a xenofobia é um ultraje, devemos combatê-la com todas as nossas forças, mas daí você dever se calar porque eventualmente podem te interpretar errado, fazendo generalizações que você não pretendeu, nem de longe parece ser a melhor opção! É quase semelhante a dizer: pare com as estórias do Superman porque as pessoas poderão achar que elas podem voar. A meu ver a proposta dele acaba sendo evitar um mal com um mal ainda maior. Devemos sim saldar os cartunistas da Charlie Hebdo, que não se calaram frente às ameaças, mas continuaram de peito aberto, defendendo os ideais de liberdade conquistados a tão alto preço na história da humanidade; de fato, se calar resolveria o problema, afinal, o que a grande maioria dos impositores pede é que seus opositores se calem, mas como diz a canção “Minha alma” do Rappa, “paz sem voz não é paz, é medo”. JE SUIS CHARLIE!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Deus continua morto

      Um dos piores filmes já feitos, lixo³! O filme é patético, mal feito, previsível, ridículo em todos os aspectos. Tanto os personagens como os atores são horríveis (tipo Malhação, saca? Atores novatos em teste e veteranos que não tem mais espaço). [Aviso que o texto tem spoiler]. São inúmeras estórias desconexas, mal contadas, mal elaboradas e mal finalizadas, todas com o intuito descarado de propagar o cristianismo a força. Não merece se quer quaisquer resenhas críticas, porque isso já é dar moral demais para um filme tão mal feito. Nietzsche já aconselhava: “não basta, contudo, saber manejar bem uma boa espada; é preciso saber também a quem se fere! Muitas vezes há mais valentia em se abster e em passar adiante, a fim de se reservar para um inimigo mais digno... ...por isso há muitos adiante dos quais deveis passar; sobretudo ante a canalha numerosa que vos apedreja os ouvidos, falando-vos do povo e das nações" (Assim falou Zaratustra. Das Antigas e Das Novas Tábuas, XXI). Sem dúvidas esse filme não é um inimigo digno de críticas, pensei duas vezes antes de escrever esse texto, quase desisti, mas como ele está sendo muito falado e a capa dele é literalmente uma propaganda enganosa bem criativa, vamos ao comentário:

      A discussão filosófica sobre a questão nem sequer é abordada de forma minimamente aceitável. Sou professor de Filosofia, fiz o meu TCC sobre a existência de deus, para começar a conversa, deve-se aclarar e definir bem o conceito “deus” – um conceito que vai desde forças da natureza e animais até definições mais amplas e sofisticadas, como o Deísmo, o Panteísmo, o Deus cartesiano, a princípio tão somente criador da “Res Cogitans” (Coisa pensante), entre outros –, depois questionar se tal ser é necessário para explicar o que experimentamos, essa é a boa questão.

      Todas as citações usadas no filme são tiradas do seu respectivo contexto e/ou tema, não dizem absolutamente nada. A famosa frase de Nietzsche "deus está morto" não é um decreto do filósofo alemão, ele não estava matando deus na ocasião, se trata de uma análise feita pelo personagem Zaratustra da sociedade, onde ninguém mais coloca deus presente para resolver seus problemas, isto é, ele não é mais invocado de fato na política, no comércio, nas trocas, na justiça, nas guerras, nas relações humanas, etc., ele fora isolado no céu, é isso que significa tal, o “deus antigo está morto”, uma constatação. “Se deus não existe, tudo é permitido”, a ideia está na obra de Dostoievski “Os Irmãos Karamazov”, na memorável conversa que Ivan tem com seu irmão Aliócha no bar, mas exatamente essa frase pronta não existe – erro cometido em vários outros lugares, não é novidade do péssimo filme, não o crucificarei por isso. Quando o Stephen Hawking afirma que “a Filosofia está morta”, ele estava dizendo o que inúmeros filósofos já haviam dito séculos antes, pois Filosofia aqui está sendo tomada como Metafísica, isto é, querer versar sobre a verdade última das coisas sem fundamentos sólidos. Hume já havia detonado toda afirmação desse tipo, Kant demonstra cabalmente como elas não podem ser sustentadas, Nietzsche e Wittgenstein dão as últimas facadas na já morta Metafísica. Um bom cético acrescentaria à frase do Hawking: “a Física também, ambas jamais podem nos revelar a realidade em si”. A filosofia demonstra como é ingênuo qualquer físico que pensa captar a Verdade com sua ciência; Merleau-Ponty nos apresenta isso muito bem: "O sábio de hoje já não tem, como o sábio do período clássico, a ilusão de aceder ao coração das coisas, ao próprio objeto. ...Neste ponto, a física da relatividade confirma que a objetividade absoluta e derradeira é um sonho, ao mostrar-nos cada observação estritamente ligada à posição do observador, inseparável da sua situação, e rejeitando a ideia de um observador absoluto. Não podemos gabar-nos, na ciência, de chegar, pelo exercício de uma inteligência pura e não situada, a um objeto puro de todo o traço humano, tal como Deus o veria. Isto nada tira à necessidade da investigação científica; apenas combate o dogmatismo de uma ciência que se tomaria por saber absoluto e total. Isto faz simplesmente justiça a todos os elementos da experiência humana e, em particular, à nossa percepção sensível." (Palestras. I, § 5). Não há dúvidas que no sentido mais amplo a Filosofia não está morta, pois a própria crítica à filosofia já é filosofia. Hawking diz tal pensando em termos científicos práticos, mas quando ele quer chegar ao “princípio de tudo”, tomando como base o que nós humanos observamos, mostra o seu teor pueril metafísico. E ademais, a Filosofia está em todos os campos humanos, muito além da crítica à ciência, está também na Lógica, na Ética, na Estética, na Teoria do Conhecimento, na Teoria Política, é muito improvável que uma mente brilhante como a de Stephen Hawking não reconhecesse tal valor.

      Quanto a afirmar que algo pode surgir do nada, é indemonstrável, e até segunda ordem uma contradição lógica. Os gregos antigos sempre afirmaram que nada surge do nada, o que eu concordo (mas isso não implica na existência de deus). Não conheço o texto em que Hawking afirma tal, mas se o faz, dá um passo metafísico, insustentável; qualquer idiota pode refutar, como o filme diz, até o John Lennox foi capaz. A propósito, Carnap na sua “Superação da metafísica por meio da análise lógica da linguagem” mostra como “o Nada” é uma extrapolação do jogo linguístico (com intenção de atacar Heidegger), propriamente dito, não existe “o Nada”, tal expressão não é passível de substancialização, é apenas uma falta. Filosoficamente falando, não há a necessidade de algo ter sido de fato criado, todo o mundo aparente (onde vemos mudanças, nascimento e morte) pode ser só isso, aparência, ilusões da minha mente, assim como num sonho, onde, p.ex., sonho com uma cidade inteira que nunca existiu; mas alguém poderia objetar que mesmo a ilusão teve um início, sim, teria razão, mas isso não implica substância, quer dizer, não implica que exista de fato, fora de mim. E ao contrário do que Descartes alega no “Meditações sobre a Filosofia Primeira”, não é necessário um criador do Eu, do ser pensante; é possível, não necessário – não vou entrar aqui nos detalhes, para quem tiver interesse, ver a refutação de Kant a Descartes na "Crítica da Razão Pura" (B399 – B413); tenho um vídeo no Youtube onde trato da questão: “CRESÇA 9: Afinal, Deus existe ou não existe?”. O único ponto que se salva é quando o Josh (nome bíblico, Josué, bem “sutil”, hein?!) fala que o nome e o status de alguém não faz com que as afirmações do mesmo sejam verdadeiras.

      O criador de tamanha merda de filme não conhece minimamente o que diz a teoria do Big-bang, pois nela nada fora criado, ao contrário do que o aluno idiota alega no filme (e o professor mais idiota ainda fica calado ao escutar), tudo sempre existiu comprimido em um único ponto, a "Singularidade", com a explosão houve apenas a expansão da matéria/massa já existente. Isso é o básico do básico da teoria do Big-bang! Então, é uma questão em aberto o que motivou de fato a explosão/expansão inicial, mas pode ser qualquer coisa, átomos autônomos, algo externo ao universo ou o próprio universo, multiverso e efeito de outras dimensões, a Esfera de Parmênides, hipóteses semelhantes à Matrix (cérebro na cuba), inclusive tudo pode ser apenas fruto da nossa mente, e claro, como pode ser tudo, deuses, deusas e o que mais pudermos imaginar. Ora, mas nada temos para afirmarmos se tratar dos últimos. Só temos a dúvida, o ponto de interrogação, tal não pode ser preenchido com o “Deus das lacunas”, é muito conforto responder “foi deus” para tudo o que não sabemos, mas não passa de uma resposta infantil, do tipo “sei por que sei”. O personagem principal do filme usa essa mesma falácia para responder a dúvida que existe sobre o boom de espécies no período Cambriano, tão somente a dúvida é suficiente para o rapaz afirmar que foi fruto da palavra mágica de deus! Tem que avisar para ele que depois de Darwin, que disse que a “evolução não dá saltos”, já houve muitos avanços na teoria da evolução e com a ciência genética temos nos surpreendido a cada dia, muitas coisas curiosas sobre interação genética nas espécies tem alargado o conceito de evolução biológica, inclusive já temos teorias bem plausíveis para a explosão cambriana, mas enfim, o garoto estúpido usa apenas a dúvida para defender que seu deus fez tal como feitiçaria, como uma fada encantada sacudindo sua varinha por aí. O ponto é claro, qual seja, poder ser não implica ser de fato o caso, óbvio!

   Sobre o argumento do
 “Designer inteligente”, eu escrevi um longo texto criticando um dos mais badalados pregadores (a palavra é essa mesmo) dessa tese no Brasil, Marcos Eberlin. Em suma, apela para a emoção, é carregado de antropomorfismo, metafísica barata e ingenuidade; mas ainda que fosse o caso, a partir de tal, não há qualquer passo para a veracidade do deus cristão, ou qualquer outro mito que o valha.

      O garoto alega que o livro de Gênesis (onde se encontra a contraditória criação do mundo, vegetais criados antes do Sol, assim como o dia e a luz - Gn 1: 1-18) – vale lembrar que a maioria dos teólogos de hoje não defendem a literalidade de tal – já falava a verdade que a ciência só foi descobrir 2.500 anos depois. Primeiro, a ciência não é uma verdade absoluta para compararmos com qualquer possível "veracidade" coincidente das crenças mitológicas, é tão somente as melhores teorias que temos, o melhor e mais simples para nos guiarmos no mundo (filósofos da ciência como K. Popper,  T. Kuhn, I. Lakatos, A. Chalmer, P. Feyerabend e outros mostram isso a exaustão); mas é "ciência" da coisa conforme nos aparece, limitada pelos sentidos, não da "Coisa em si" (Kant). [Tenho um outro vídeo, sobre essa questão da validade científica, para quem tiver interesse: "CRESÇA 10: Ciência, limitada, mas aplicável"]. É tão efêmero que mesmo o aumento da capacidade de observação pela tecnologia pode mostrar que estávamos errados, é assim que a ciência tem sido, não conhecemos nem mesmo o que nos aparece. Em uma palavra, a teoria do Big-bang, hoje corroborada pela nossa capacidade de observação e pesquisa, pode vir a ser falsificada no futuro – a ciência não chega à Verdade, estamos limitados à condição humana, como já dito acima; ora, dessa forma, como alegar então que a Bíblia ou qualquer livro sagrado está certo sobre o cosmos por ter alguma coisa em comum com a (restrita) ciência atual? [Diga-se de passagem, que o ridículo mito de Gênesis, na parte que deus disse “Haja luz”, ao contrário do que o filme propõe, não tem absolutamente nada a ver com a teoria do Big-bang, é uma interpretação que extrapola o texto de forma absurda por evidente conveniência, a luz em tal mito se refere ao dia, contrapondo à noite, o(s) ignorante(s) da Era do Bronze que o criou jamais imaginou(imaginaram) qualquer coisa parecida com a expansão universal – e vale lembrar que a luz não foi “criada”, mas sempre esteve compactada na Singularidade, pois na teoria einsteiniana massa se converte em energia e vice-versa: o famoso E = mc²].

      O Agnosticismo é "abordado" em segundos, como se fosse uma posição boba e ingênua, que piada! Refutar um ateu categórico, como o professor do filme, isto é, que afirma em absoluto a não existência de qualquer deus é a coisa mais simples do mundo, pois é impossível provar inexistências (sim, sem restrições prévias, é impossível provar a inexistência até do Bob Esponja! O que me garante que ele não existe de fato em um planeta distante ou em outra dimensão? Nada. Tudo que sei é que a estória dele foi inventada aqui na Terra numa data determinada, mas isso não impede de, coincidentemente, haver tal ser em algum lugar ou realidade paralela, o que não temos é motivos para levar tal hipótese a sério, antes pelo contrário, mas é logicamente possível), é tão simples mostrar a falta de fundamento para a afirmação categórica da inexistência de qualquer deus como mostrar tal para a afirmação correspondente feita para a existência de tais. Além de ruim (os sites The Guardian, Variety e o Adoro Cinema deram nota 1 em 5), o filme é tiro no pé atrás de tiro no pé, alguns dos filósofos mostrados no quadro que o professor apresenta no início não são ateus propriamente ditos, não acreditar em deus não implica afirmar cabalmente a inexistência de tal. A posição cética/agnóstica não permite tais passos metafísicos. Não há como provar que Jesus não é deus assim como não há como provar que Zeus não o é, Hume já dizia que a princípio tudo pode ser tudo, só não temos razões para acreditar em tais, já que nosso melhor guia é a experiência e as questões de fato, através delas não temos subsídios para levar em consideração tais deuses/hipóteses (sim, mesmo muito fracas, não deixam de ser hipóteses, mas são só isso, o fato de não conhecemos a realidade em si obviamente não é suficiente para lhes darmos qualquer crédito).

      Ligar a não crença no cômico deus cristão aos sofrimentos pessoais foi o cúmulo, só perdeu mesmo para todo mundo convertendo no final, é brincadeira! A opinião daquele crente mais imbecil que se pode imaginar é trabalhada no filme, querem passar a imagem que alguém se torna ateu, ou não crente em deus, por ter sofrido muito. É tão absurdo que nem sei por onde começar a criticar esse disparate, bom, o mundo está repleto de horrores, e se fosse necessário tal para descrer do insustentável deus cristão, não seria preciso vivenciá-los, bastaria olhar ao redor, crianças passando fome, sendo estupradas, torturadas, assassinadas, violentadas de todas as maneiras possíveis por aqueles que deveriam as proteger, precisa de algo mais (como no filme a morte da mãe do professor)? Fala sério! Dito isso, crer no deus cristão é no mínimo imprudência, é acreditar em algo que vai contra as evidências (essas não nos dão a Verdade, mas é o melhor que temos para termos práticos), que se contradiz o tempo todo, que não é falsificável, que não tem bases ou implicações confiáveis, em uma palavra, é irracional (salvo para epifânicos que dizem ver e conversar com deus) – entenda-se por racional a melhor escolha. Fé não é virtude, é ingenuidade. Crer sem mais é dar crédito para qualquer absurdo.

      O argumento do C. S. Lewis para explicar o mal do mundo, em suma, é o “Livre-arbítrio”, segundo o mesmo o mal não é a vontade de deus, mas consequência dos nossos atos. [Tenho um vídeo refutando o argumento dele: “CRESÇA 12: Moral, Ética Cristã e o Estado justo”]. O autor é citado no filme, mas é claro, não levam em consideração àqueles males que não são consequências dos nossos atos (não podem ser indiretas, já que para Lewis deus não castiga), como tsunamis, terremotos, tornados, explosões vulcânicas, pessoas atingidas por raios, meteoritos, defeitos biológicos e todos os outros males causados pela natureza. Se deus é bom, todo-poderoso e impreterivelmente tem autoridade sobre a natureza, como explicar tais males? (E que males!).

      A bosta de filme termina com a imbecilizante conversão do professor de Filosofia (que é colocado como um monstro cruel anti-ético durante todo o filme, como se fosse impossível agir moralmente sem deus – desconsideram que o agir moral é um ganho para todos numa vida em sociedade), o cara é atropelado por um carro e nos momentos finais, em meio ao medo extremo, confessa Jesus Cristo como seu salvador (acredite, se você deixar de assistir esse filme pelo spoiler, vai me agradecer) – deus enviou um pastor para livrar a alma dele do Inferno! rs. Como disse Bertrand Russell, isso é uma mentira das mais covardes que vem sendo usada por religiosos, poucos descrentes convictos se convertem à uma divindade na hora da morte, até porque, ao contrário do que prega a famosa “aposta de Pascal”, escolher o deus cristão para ao menos se livrar do Inferno, se agarrando no argumento de que não há nada a perder, é insustentável, pois escolher um deus em específico é negar os outros milhares que podem existir, não faz sentido. E como Rubem Alves diz no livro “O que é religião?”, esses que se convertem e/ou clamam deus na eminencia de morte na verdade não acreditam de fato, querem é continuar a vida a qualquer preço – caso clássico, num avião em queda os “crentes”, ao invés de ficarem felizes por estar indo de encontro ao seu deus, clamam para serem salvos; contradição é mato! Para finalizar, não se prova a existência de deus, não se prova a sua inexistência, mas não há porque crer em algo sem mais, sobretudo no que contraria os fatos. “Deus não está morto”, em todos os sentidos, é um filme para se colocar no lixo, mesmo para você cristão.